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Museu Municipal de Moura

CONCURSO PÚBLICO Nº01/2009 DAF
”Concurso Público para a reabilitação do edifício do Matadouro para Museu Municipal, construção de Ponto de Chegada e Correspondência e Ponto de Abrigo em Moura“ 

da Memória Descritiva e Justificativa

O Museu de Municipal de Moura é, desde a sua formação em 1915 (Biblioteca-Museu de Moura), uma instituição motivada essencialmente pela recolha de um vasto espólio de achados arqueológicos do concelho. Já na altura a colecção era exposta três secções principais: Pré-história, Época Romana e Etnografia Portuguesa.

Desde então muito se ampliou esse espólio, por diversas campanhas instigadas por estudiosos da história local (Fragoso de Lima, João da Mouca entre outros), instalando-se a colecção em 1993 no antigo celeiro comum, conhecido como a “casa do rato” .
Tratando-se de um museu eminentemente arqueológico, todo o espólio aqui reunido está intimamente ligado aos locais da sua proveniência (estações arqueológicas) dispersos pelo território e paisagem envolvente da cidade.
É em boa parte nesta relação museu-território que irá em boa parte assentar a proposta que readaptação do Matadouro a Museu Municipal.

As muralhas medieval, Moderna e o Revelim da Roda

O Matadouro Municipal implanta-se já “fora de portas”, a poente da Muralha Moderna, na encosta do rio da Roda. Uma análise cuidada da topografia geral da cidade levaria a concluír que este local terá um perfil natural de pendente suave e constante desde as cotas mais altas da cidade em que se implanta o castelo. Este perfil terá sofrido grandes alterações (aterros e desaterros) para acomodar a complexa construção das muralhas, no seu articulado recorte abaluartado e revelins exteriores.

É provavelmente na sequência desta operação que terá resultado o facto de que actualmente a área de intervenção do Matadouro e do Ponto de Chegada se implantam num terreno praticamente plano. Se junto à muralha (ponto de de chegada) estaremos numa zona de desaterro, já sob o matadouro é expectável encontrar um aterro datado da mesma época.

Confrontando estas observações com a cartografia disponível, actual e histórica, verifica-se que o Matadouro está implantado no terreno que correspondente à localização do Revelim de Santo António (planta de Moura BN,E3812 P). Este hipótese parece confirmar-se efectivamente no local, com o embasamento das construções anexas ao matadouro a apresentar características morfológicas e construtivas muito distintas dos edifícios, expondo quando falta o reboco uma alvenaria de pedra muito semelhante na natureza geológica, estereotomia e técnica construtiva àquela que se verifica da Muralha Moderna.

Este facto, por si só, e naturalmente integrado na lógica de valorização geral das muralhas de Moura e da sua história militar, justifica a adopção de uma estratégia arquitectónica com enfase no revelim, dada a pertinência e alcance histórico desta construção quando confrontada com o matadouro. Contorna-se assim um historial (matadouro) porventura arrepiante ou no mínimo difícil, e centra-se o discurso na história da cidade, significativamente mais adequado para dar suporte ao novo Museu Municipal.

Enquadramento Paisagístico

A Área Verde de Protecção estabelecida pelo PDMMA ao longo do vale do Rio da Roda constitui um dos elementos mais expressivos da estrutura verde urbana da cidade, integrando o sistema húmido ao qual pertence igualmente o Ribeiro de Brenhas, que contorna a cidade a Nordeste, e no qual o Rio da Roda aflui a Norte de Moura, antes de desaguar no Rio Ardila. Deste sistema húmido farão igualmente parte as vertentes côncavas (onde têm origem todas as linhas de água).

Ao nível da estrutura verde urbana, e no caso de Moura, o sistema seco, que funciona em complementaridade com o húmido, gerando fluxos atmosféricos e hídricos, está intimamente associado à malha urbana. Tendo a cidade tido a sua origem num cabeço, a edificação mais antiga surge associada às linhas de festo. Desta, para além das praças e largos, fazem parte os logradouros existentes no interior dos quarteirões como componentes de uma estrutura verde descontínua que, embora na sua maioria de carácter privado, desempenham um papel fundamental na manutenção da permeabilidade do solo (diminuição de riscos de cheia; alimentação dos lençóis freáticos) e ainda, em potência, no abastecimento alimentar familiar, salientando-se o seu papel na definição de um carácter urbano inscrito na memória histórica e colectiva da cidade e da região.

A intervenção na “Zona do Matadouro” deverá constituir uma peça estrutural na implementação física e funcional de uma estrutura ecológica e cultural urbana e regional. Neste sentido é prioritário o restabelecimento da continuidade do rio da Roda, entretanto parcialmente canalizado, reconfigurando o seu perfil e integrando a linha de água numa estrutura verde urbana, recreativa e cultural em que os rios são os elementos matriciais de uma estrutura que pretende ser contínua e intrusiva na cidade, estabelecendo percursos cicláveis e pedonais que acompanham (ou descrevem) simultaneamente uma rede de itinerários culturais.

O novo Museu e o “Parque Linear do Rio da Roda” deverão constituir um conjunto articulado física e operacionalmente, funcionando o museu como equipamento principal do parque (com cafetaria, centro de interpretação de percursos; aluguer de bicicletas e outro material didáctico/desportivo). Espacialmente o museu localiza-se num promontório sobre o vale, que surge exactamente na extrema do talude húmido (zona inundável), com uma panorâmica privilegiada sobre o mesmo e o mosaico cultural que envolve a cidade.

Enquanto elemento polarizador situado numa das “entradas” da cidade antiga, portanto num ponto de transição evidente entre cidade densa e cidade dispersa, e de relação com a zona ribeirinha, o espaço do museu deverá “trazer” para dentro da cidade a vegetação, procurando estabelecer linhas de continuidade biológica, ainda que de forma progressivamente intermitente à medida que entra no núcleo urbano. Estas continuidades (que podem eventualmente estar reduzidas à expressão de um alinhamento arbóreo em caldeira) desempenham contudo um importante papel na articulação entre a paisagem rural e os logradouros no interior da cidade, estabelecendo, além dos fluxos atmosféricos, corredores para alguma fauna, nomeadamente aves.

O Acesso e a articulação com a Mouraria

A chegada ao museu a partir do coração da cidade faz-se descendo através da Mouraria, pela Segunda Rua da Mouraria, que entronca na Travessa do Matadouro.

Fazendo este percurso, o edifício do Matadouro aparece-nos ligeiramente deslocado para sul, revelando-se apenas quando entramos
na Rua de Matadouro.

Foi para esta rua que a arquitectura do edifício do Matadouro se orientou primordialmente, caracterizou a sua presença pública e se inscreveu no imaginário colectivo.

Parece-nos assim importante que, pese embora a qualidade arquitectónica do edifício, o sentido da sua reutilização não deva ser posto nos termos da sua anterior estratégia arquitectónica, pois a esta estão (e estarão) associados os seus anteriores usos.

A nova utilização exige também um novo olhar sobre o edifício, naturalmente respeitando a sua história e características tipológicas.
Por isso propomos que o acesso principal se passe a fazer pelo páteo norte, que confina com a Travessa do Matadouro, ancorado no redescoberto Revelim de Santo António e com uma relação reforçada com a Mouraria.

Este importante elemento passa agora a ter um novo desempenho na história da cidade. Propomos que seja revelado por fora pela da remoção dos rebocos de recobrimento e por dentro, por desaterro para acomodar uma rampa de acesso directo às exposições temporárias. A identidade e comunicação do museu passará assim a ser feita a partir do Revelim  como estrutura primordial, prolongado no tempo através de delicadas mas estruturantes intervenções contemporâneas (corpo de acesso, muro de suporte e rampa) e de um novo fôlego do edifício pré-existente (Matadouro).

Conceito arquitectónico

Tratando-se de um museu cujo espólio é eminentemente arqueológico parece-nos importante que a sua futura concepção consiga desenvolver uma relação mais permanente e efectiva com as estações arqueológicas do concelho. Este aspecto contraria a limitação crónica dos museus enquanto instituições fechadas sobre si mesmas, que se visitam dificilmente mais do que uma vez.

A nossa proposta assenta numa estratégia em que o museu funciona como o centro de recolha e exposição, mas sobretudo de interpretação que precede visitas e caminhadas pelo território envolvente às estações arqueológicas, ou campanhas de escavação em curso guiadas, numa concepção contemporânea de turismo cultural ecológico. Este aspecto parece-nos ainda mais importante pela beleza da paisagem envolvente, a presença da nova massa de água do Alqueva e a pela alteração da procura nessa área de segundas habitações/lazer que os inúmeros planos turísticos da região vão fazer despoletar.

Propomos por isso adicionar ao programa um pequeno centro de interpretação que poderá  servir de apoio a estes visitantes que utilizam o museu como ponto de partida e que poderão porventura com este manter uma relação de vários dias, podendo escolher itinerários distintos. Este apoio pode ter várias dimensões, desde a eventual guarda de calçado/roupa/outros, consulta individual de folhetos e mapas ou de aprendizagem individual por via informática no local ou remota, ou por seminário prévio por guia a pequenos grupos.

Entendemos  por isso valorizar na proposta arquitectónica a dimensão da esvação e da descoberta na nova configuração do museu.
Propomos retirar parcialmente o aterro no tardoz do Revelim, redescobre-se a parede histórica, que passa assim a conferir um carácter de dimensão arqueológica evidente ao museu.

Trata-se de uma operação tecnicamente simples, com características didácticas de evidente sintonia com o discurso do museu.
Sobre esta “escavação” propomos pousar delicadamente uma “membra” ou coberto que nos fale de algo mais temporário, reversível, com ressonância nas estruturas de coberto efémeras das estações arqueológicas.

Esta estrutura é proposta em construção de estrutura de madeira aparente com um forro superior em zinco natural em junta agrafada, suportada por delicados pilares metálicos de duplo pé-direito.

Esquematicamente, neste piso, o corpo norte alberga os serviços de apoio ao visitante (Recepção, Espera, Loja, Serviços Educativos, Sala Polivalente, Centro de Interpretação), enquanto no corpo sul se localizam os seviços internos (Cais, Restauro, Secretariado, Sala de Reuniões, Direcção).

Museologia - O Museu como tecnologia da memória e da identidade

Com o aparecimento da “nova museologia” nos anos 70 – uma tendência de reforma e criticismo – gerou-se um campo de reflexão/ruptura para legitimar a re-análise das funções e práticas museológicas. Um dos seus ramos de maior sucesso, virão a ser os “ecomuseus”, que colocam na agenda da política cultural museológica, a participação comunitária e a representação da identidade local como objectivos prioritários.

A sacralização do objecto foi impugnada pondo em causa o conceito do museu clássico sucedendo-lhe espaços protagonizados pelas estratégias narrativas e de contextualização as quais constroem o seu discurso sobre a memória, querendo que o território onde se inserem passasse a ser um espaço de partilha e de apropriação.

O ecomuseu já foi definido como “um espelho onde uma comunidade poderá reconhecer-se a si própria e explorar as suas relações com o ambiente geo-físico envolvente, como também com as populações que a precederam; propõe-se também oferecer uma imagem aos visitantes para promover uma compreensão empática, com a obra, os costumes e as peculiaridades de uma comunidade”. Assim o denominador comum para o entendimento da formação do(s) núcleo(s) urbano(s) numa óptica castrense poderá constituir um dispositivo de interpretação, susceptível de cumprir parte dos objectivos da definição citada, como se irá verificar.

O museu também poderá ser visto como um compósito que abrangeria componentes de um museu histórico, de um museu geográfico (museu do tempo/museu do espaço), um laboratório de campo ou um workshop. Tendo em atenção a existência de núcleos plurilocalizados do Museu de Moura, a rede a ser implementada gerará sinergias para o envolvimento da referida comunidade a partir da proposta de um circuito de visitas a indução de itinerários “temáticos”, e a participação nas actividades.

Nesta perspectiva o Museu de Moura, ente municipal, poderia formatar um interface com o departamento de Turismo da Câmara, para a definição de roteiros culturais, sendo responsável pela fixação de conteúdos e cujos públicos alvo seriam turistas, estabelecimentos escolares e grupos da comunidade. A exposição permanente extravasa os seus parâmetros expositivos e gerando, sempre que possível, inter-relações com vestígios significativos extra-muros do tema que optou tratar.

Em consequência o Museu poderia propor a criação de uma rede de visitas ao património militar edificado, v.g. segundo o modelo do levantamento feito para a exposição Fortificações Modernas de Moura, 2005, (coordenação Santiago Macias e Vanessa…).

Pressupondo, entre várias componentes, o desenvolvimento de um projecto de comunicação visual que situaria padronizadamente em termos gráficos os locais a visitar, uma brochura/dépliant mapearia para os visitantes os circuitos pré-definidos, contendo uma informação histórica sucinta. Os contornos investigacionais gerados pelos conteúdos científicos da(s) mostra(s) centralizam a abordagem e a abrangência do conhecimento sedimentado, precipitando para outros instrumentos a massa de informação gerada. O museu ganharia como quem uma autoridade orgânica.

Em conclusão o museu de Moura deveria propor e incentivar, enquanto guardião da herança patrimonial, a conservação da rede de Fortificações integradas no roteiro, que constituem marcas que a comunidade passa a referenciar e a respeitar, para além de ajudarem à sustentabilidade de um programa de animação turístico-cultural.

À antiga missão cometida aos museus de conservação e inventariação substituem-se os novos objectivos de descobrir e interpretar a cultura (e os acervos), Daí que o museu seja entendido enquanto “centro de interpretação” e nesse registo a importância dos mecanismos de descrição e contextualização apresentam-se com a máxima relevância – determinam o modo de descodificação das mensagens que são oferecidas aos visitantes e crédito cultural que o mesmo ganha, no contacto com o discurso museológico, enquanto extenso processo de significação.

Os museus passaram a incorporar nos seus objectivos os apports das ciências sociais e humanas, revitalizam os processos de montagem, de exposição, de comunicação e estimulam a alteração das relações tradicionais entre a instituição e o público, pelo que se fala de museologia activa, museologia antropológica ou etnográfica.

O aparato das novas tecnologias pode cumprir um papel de excepcional proactividade pela interacção gerada com os públicos jovens e escolares. O discurso multimediático pode motivar uma aproximação mais participativa dessas camadas de visitantes, potencializando um vasto caudal de informação, com uma área de incidência na descoberta da própria identidade, com a sua própria história e geografia, propiciando o desenho de um perfil de cidadania sustentado, em desenvolvimento cultural.

Cite-se a título de exemplo o Museu da Torre de David da História de Jerusalém que abriu à visitação em 1989, junto à Porta de Jaffa e está instalado numa antiga prisão. É uma instituição pública e tem por encargo (árduo) narrar a história da cidade (a presença do passado no espaço público). Na colecção permanente utiliza avançados equipamentos tecnológicos – tais como hologramas, dioramas, desenho gráfico computorizado, visitas virtuais, touch screens, vídeos e cd-roms -  expõe peças “autênticas”, juntamente com réplicas e reconstituições efectuadas, sempre que necessário, para uma específica exposição ( o que equivale a dizer que se verifica o reaproveitamento dos materiais expositivos resultantes das temporárias).

Ponto de Chegada e Correspondência

Este ponto de chegada remata a poente a construção da Mouraria, entre o Meio-Baluarte do Carmo e o Baluarte da Muralha Nova, num lugar de particular visibilidade, tendo como fundo visual a muralha.

Entendemos por isso conferir-lhe uma morfologia anónima, branca, em continuidade formal com o casario, dobrada em duas águas, e rematando a silhueta da volumetria que lhe é adjacente na Rua do Matadouro.

A construção será em betão armado, com um barramento branco (Duracril) que lhe conferirá uma superfície lisa, mate, como que caiada. Tal como no casario que circunda as muralhas da gravura de Duarte Darmas, aqui o volume simples é perfurado de forma imediata pelas suas exigências funcionais.


Ponto de Abrigo

O ponto de abrigo localiza-se na periferia urbana nascente, junto ao parque escolar e desportivo. Esta zona da cidade aparece já bastante descaracterizada, relativamente ao núcleo urbano, numa zona de expansão urbana recente, em que o edificado é disperso, tendencialmente isolado ou em banda, intercalando estruturas diversas de ulilização pública.

Neste sentido optou-se por desenhar um pequeno edifício isolado, de cobertura plana e acabamento em godo, construído em betão armado aparente e recortes escavados com forro de pedra mármore branco amaciado.

A importância desta peça reside não apenas na sua utilização, de apoio aos transportes e tempos livres dos alunos da escola (Informática/internet), mas também por se integrar num bairro pouco coeso do ponto de vista urbano, e que possa constituír uma referência a uma modernidade qualificada.

Ficha Técnica

Dono de Obra

Câmara Municipal de Moura

Morada

Moura,
Portugal

Concurso

2009 - 4º lugar

Projecto

2003 – 04

Arquitectura e Coordenação geral do Projecto

ARX PORTUGAL, Arquitectos Lda.
José Mateus
Nuno Mateus

Colaboradores

Sofia Raposo, Ricardo Guerreiro, Mariana Sá, Emanuel Rebelo, Fábio Cortês, Isabel Mello

Arquitectura Paisagista

Traços na Paisagem - Filipe Brandão

Estruturas

Safre - Estudos e Projectos de Engenharia, Lda.

Instalações e Equipamentos Eléctricos e de Telecomunicações

Segurança Integrada

AT, Serviços de Engenharia Electrotécnica e Electrónica Lda.

Área

12 250 m2