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Nasceu em Castelo Branco, em 1963 e licenciou-se em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa (FAUTL), em 1986. É Presidente da Assembleia Regional Sul da Ordem dos Arquitectos e foi vice-presidente da Direcção da mesma Secção Regional no Triénio 2005-2007. Director da primeira Trienal de Arquitectura de Lisboa em 2007. Foi docente de diversas Escolas e é actualmente professor convidado na Escola Superior de Arquitectura da Universidade Internacional da Catalunha (UIC-ESARQ), em Barcelona. Autor/coordenador da revista semestral Linha (Arquitectura, Design e Paisagem) do semanário Expresso, foi também autor/coordenador das duas séries de televisão Tempo & Traço para a Sic-Notícias e participante regular no programa Na Ordem do Dia da TSF. Conferencista em diversos países, integrou o Júri do Prémio de Arquitectura da Bienal de São Paulo em 2003 e Europan Espanha 2007. Fundou, com Nuno Mateus, a ARX Portugal em 1991. Em 1993, o trabalho da ARX foi objecto da Exposição “Realidade Real” no CCB e integrou inúmeras outras, nomeadamente a “Percurso/ Útvonal – ARX Portugal” (Budapeste, 2000), a “Influx 0.1” (Fundação de Serralves, 2002), a “Contaminantes/Comunicantes” (Lisboa, 2000) e a Trienal de Nara (1994). Com o Centro Regional de Sangue do Porto, integrou a exposição “Architettura e Design del Portogallo 1998-2004” da Trienal de Milão. Os projectos da ARX foram objecto de inúmeros prémios, menções e nomeações, nomeadamente o International Architecture Award2006 para a Biblioteca Municipal de Ílhavo (The Chicago Athenaeum) e o Prémio AICA 2003 (Associação Internacional dos Críticos de Arte) para o Museu Marítimo de Ílhavo, também nomeado para os Prémios SECIL 2002 e Mies van der Rohe 2002. Os projectos da ARX foram publicados em inúmeras revistas nacionais e internacionais de referência.
+arq Recorda-se do seu primeiro interesse pela arquitectura?
José Mateus Recordo-me, mas ao nível da vivência da arquitectura, de quando era miúdo. As vivências de infância ficam gravadas muito profundamente e acompanham-nos pela vida fora. Recordo-me de acompanhar a minha mãe quando ia estudar à universidade de Évora e do extraordinário claustro da universidade. Recordo-me também de uma vez ficar à guarda do jardineiro, que estava a tratar dos espaços exteriores e de brincar no Templo romano. Recordo-me de caminhar, ainda muito pequeno, pelas ruas de Évora e de ir com a família para os campos em redor, marcados por “erupções“ rochosas de uma beleza rude. Aquele território alentejano de características únicas, com a cidade, subitamente, a irromper no meio. Tinha perto de 4 anos de idade. No entanto, tenho essas imagens muito fortes na minha mente. Continuando por essas memórias antigas: Melides e Grândola, onde passei muitas das minhas férias, era onde vivia a família do lado da minha mãe, com a beleza própria de um Alentejo diferente, já litoral, integrado no sistema natural da Serra que faz a transição da vasta planície para o mar. Seria para Melides que viria anos mais tarde a desenhar a primeira casa com o meu irmão. Do lado da família do meu pai, retenho as memórias das temporadas na Beira Baixa – nasci em Castelo Branco –, e a aldeia onde passava muitas vezes férias, feita de casas de xisto, com os vãos sublinhados no meio da textura riscada da pedra, pelas ombreiras e vergas caiadas. As ruas eram pavimentadas com grandes lajes de xisto, por vezes literalmente rocha natural. Até o pavimento da cozinha do meu avô era quase uma continuação natural dessa rua. Era uma impressão sempre muito forte e profunda da arquitectura com um sentido telúrico. Fiz o liceu num colégio interno, o Colégio Militar, e aí tinha dois lados da questão: um era habitar um recinto fechado, um território completamente contido que associa o lado protector e o lado comunitário, que cria amizades e deixa marcas pela vida fora. O outro era a consciência desse limite muito forte e impositivo que nos provocava a pô-lo em causa, de uma forma literal, saltando o muro. Todas essas vivências moldaram a minha percepção da paisagem rural ou urbana, da arquitectura e do sentido comunitário. São indissociáveis daquilo que sou hoje. Mas, só muito mais tarde é que me interessei conscientemente pela arquitectura.
+arq Quais são as suas referências arquitectónicas?
JM - não sei se são propriamente referências, mas têm o valor de serem obras que ficaram registadas na minha mente desde a infância como “fotogramas“ dispersos. Recordo-me de passar frente ao “Franjinhas” [edifício de escritórios, em Lisboa, da autoria de Nuno Teotónio Pereira, 1969-71] e de ficar um bocado surpreendido com aquela arquitectura. Recordo-me de ir, numa visita de estudo, ao Mosteiro dos Jerónimos. Por fim tenho que referir a Gulbenkian. Recordo-me de passar à frente quando ainda estava em obras e de fixar o olhar incrédulo naquele edifício de linhas muito precisas, muito distinto de tudo o que se passava à volta. Em todos estes casos, fui tocado de uma forma profunda, todos estes edifícios me deixaram uma impressão muito forte. Há tempos, ouvi uma frase de António Cícero - filósofo e escritor brasileiro - , “Na literatura não interessa tanto fazer o novo. Interessa mais fazer algo ou escrever algo que a leitura não envelheça”. E, de facto, apesar das minhas visitas regulares à Gulbenkian, constato que não “envelheceu“ passados todos estes anos. Para mim, mantém o mesmo fascínio inicial. É um repto dificílimo, para um arquitecto, conseguir fazer isso alguma vez na vida. Hoje, as minhas referências são muito diversas. Vão desde a arquitectura anónima, na qual reconheço um brilho ou intensidade inesperada, até aos trabalhos mais mediatizados. Indicar um ou outro autor seria inevitavelmente redutor e ficaria algum de fora. Porventura, é-me mais fácil identificar formas de pensamento nas quais me revejo do que propriamente em concretizações específicas.
+arq Além da arquitectura, há outras influências culturais no seu trabalho?
JM - Quando me falam de influências vem-me muitas vezes à mente uma frase de Jorge Luis Borges (escritor argentino) , “quem é Borges? Não é ninguém. É os livros que leu, as pessoas que viu, as cidades que visitou“. Eu e o Nuno – irmão e sócio na ARX – tivemos uma educação muito diversificada por via familiar. Isto também tem a ver com o perfil dos nossos pais, que são pessoas com inúmeros interesses e não têm formações relacionadas com a arquitectura. Sempre me habituei a esse espalhar da atenção sobre muitas áreas. A própria educação no Colégio Militar foi altamente exigente e variada. Fui forçado, e acho que bem, a não escolher muito cedo uma área científica que me direccionasse para um curso. Era obrigado a escolher duas áreas. Oscilava entre medicina e engenharia de máquinas. Interessava-me muito a problemática dos motores e a complexidade desses mecanismos. E foram estas duas áreas que eu estudei até ao 12º ano. Acabei por escolher arquitectura, porque todos os indicadores, professores e gente mais madura que me acompanhava, diziam que demonstrava aptidão para essa área. E o interesse foi surgindo. Viver no atelier a desenhar ou ir às obras, é uma coisa fundamental na minha vida, estruturante, é a base, é o princípio e o fim, mas tem que passar por uma série de outras actividades complementares. Acontece ainda que na ARX tenho um sócio, e isso ajuda a que a nossa relação seja mais rica e interessante. Eu e o Nuno encaramos este atelier também como um espaço de partilha das experiências dos dois.
+arq Ainda no contexto das vossas influências culturais: o vosso projecto Metropolis Lote 6, da ARX, tem uma referência muito forte ao quadro de Marcel Duchamp [Nu descendo uma escada Nº 2, 1912 ].
JM - As nossas referências são tudo aquilo que vemos e nos espanta, emociona ou suscita a nossa curiosidade. Na ARX, não temos, nem nos interessa de todo, uma arquitectura que siga uma lógica muito contínua. Provavelmente é o reflexo da educação que tivemos. Interessa-nos, em cada projecto, tirar imenso prazer de todo o processo, experimentar, fazer algo tão estimulante quanto a nossa capacidade nos permita atingir. Hoje em dia, a informação corre muito depressa. Encontramos muitos estímulos nas Artes Plásticas onde diversos autores formulam conceitos e desenvolvem abordagens cujos fundamentos filosóficos ou teóricos sugerem reflexões interessantes na arquitectura. No Metropolis estamos a trabalhar sobre um master-plan que já está feito pela CPU [CPU Urbanistas e Arquitectos, Lda], cujo desenho é fundado numa lógica de movimento. Quando desenhámos os nossos edifícios, investigámos o potencial do movimento no desenho da arquitectura, o que nos remete para alguns dos nossos primeiros trabalhos. No início da ARX, fizemos algumas investigações sobre cinética que partiam de imagens do Marrey - Etienne-Jules Marrey -, aquelas cronofotografias com o registo do movimento como o “Le coup de Marteu“ ou o “Saut au-dessus d’un obstacle“. Também vivíamos um tempo de grande entusiasmo pela obra de Marcel Duchamp. Construímos pouco porque eram concursos e perdemo-los quase todos. Por isso, quando nos apareceu este projecto percebemos que era a oportunidade de voltar àquele tipo de investigação e construir mesmo.
+arq A sua experiência nos mass media mudou a sua postura perante a arquitectura?
JM - A comunicação é uma coisa que me interessa muito porque por definição tem a ver com partilha e transferência de conhecimento. Obriga-me a estudar, a viajar, a investigar a cultura portuguesa, a arquitectura, para depois, poder pôr em prática esse gosto pela comunicação. Foi o que aconteceu quando fiz a série de programas Tempo&Traço (SIC-Notícias) e a revista Linha (Expresso). Tive que perceber, com muita clareza, o que são os argumentos ou fundamentos de cada um daqueles projectos, o seu “código genético“, para os poder explicar de uma forma simples aos telespectadores e leitores que não poderiam ser confrontadas com uma linguagem demasiado densa e técnica. Agrada-me intervir na sociedade e estimulá-la para o fascínio da arquitectura, para o impacto que pode ter na qualificação das suas vidas. E, interessa-me também esse trabalho de perceber como é que outros arquitectos compõem as suas obras. É uma espécie de exercício de tradução. Com este trabalho, ganhei um campo vasto de referências e mudei muito a forma de eleger as ideias em cada projecto e até a forma de comunicar sobre o meu próprio trabalho. E, do ponto de vista humano, é extraordinário. Conhece-se muita gente, entre arquitectos e donos de casas, e, normalmente, quando as obras são muito boas, as pessoas têm uma relação profunda com elas. De modo que normalmente são encontros muito intensos, quase obcecados e, para mim, muito familiares e estimulantes.
+arq Nesse âmbito do gosto da comunicação surge a Trienal de Arquitectura. Trata-se de uma dinamização da arquitectura, na cidade de Lisboa, que retoma uma intenção, a Trienal de Sintra, que não já não tinha condições para continuar. É possível pensar que a Trienal de Arquitectura tenha surgido do gosto de comunicar, de reunir a comunidade de arquitectos, tanto nacional, como internacional?
JM - Em boa parte foi essa a primeira motivação. A explicação para o aparecimento da Trienal é muito simples. Eu conhecia a Bienal de Veneza e fui jurado na Bienal de São Paulo, há duas edições atrás, onde passei, durante uma semana, horas e horas a analisar mais de quatrocentos projectos. Na cidade de São Paulo, a Bienal é uma referência, algo que suscita nos paulistas, não só nos arquitectos, um grande orgulho. Quando lá estive encontrei gente de todo o mundo e fiz alguns amigos. Era interessantíssimo como espaço de partilha e fiquei irrecuperavelmente fascinado pela possibilidade de termos cá algo semelhante. Quando cheguei pairavam-me na mente hipóteses para levar essa ideia à prática. Tendo nós um meio de arquitectura de qualidade, que é reconhecido noutros países, a ideia pareceu-me muito pertinente. E Lisboa é uma cidade maravilhosa, lindíssima, misteriosa e com grande vocação para acolher a organização de eventos. Para mim, era fácil antever gente a vir de todo mundo, a passar aqui alguns dias a conhecer a cidade, a ver o que se faz de melhor na arquitectura portuguesa e, também, a partilhar ideias com uma série de outros países. Uma espécie de babel de línguas e culturas de todo mundo. Ainda por cima, por estranho que pareça, não existia em Espanha. Este ano integrei o júri da Europan–Espanha, e diziam-me “Por que é que essa Trienal não se torna numa Trienal Ibérica?” E porque não? Quando no final de 2004 fui eleito Vice-Presidente da Direcção Sul da Ordem dos Arquitectos, propus a ideia numa das primeiras reuniões da Direcção. Para mim fazia sentido que fosse a Ordem dos Arquitectos a dar o “pontapé de saída“, dada a sua credibilidade que poderia ser decisiva no arranque. E foi. Estou a falar particularmente da Direcção Sul - a Norte também apoiou mas a Nacional opôs-se –, que ficou imediatamente entusiasmada com o projecto, correu todos os riscos com espírito de ambição, pondo de lado o comodismo e sofrendo bastante, porque foi um projecto complexíssimo.
+arq É para continuar, depois?
JM - É evidente. Agora será tudo muito mais simples, desde a esquematização geral do evento, à angariação de apoios financeiros e à execução de uma forma geral. Agora é possível identificar onde foram cometidos erros, o que funcionou melhor ou pior, qual a equipa mais adequada para o fazer, etc. Para mim é claro que se deve organizar noutra altura do ano, entre final de Setembro e Novembro e deve ser um evento menos fragmentado, apesar de acreditar que deva ter um polo muito forte no Porto. Também acredito que deve ter um Director Artístico ou Científico com uma presença reforçada, um papel-chave e as funções do Comissário Geral devem ser aligeiradas e centrar-se na gestão cultural, tal como a concebo, mediando entre a área cultural e a financeira do evento. Quanto ao Director Científico, penso que deverá ser estrangeiro, na edição de 2010 ou, o mais tardar, na seguinte. Aprendi rapidamente que esse distanciamento face ao meio português é fundamental a muitos níveis. E, temos que trabalhar com o melhor que pudermos. Sobre o futuro da Trienal, já houve um debate na Ordem aberto ao público e a convidados. Seguem-se várias consultas e debates em Portugal e noutros países. Lá para o final de Abril, será apresentada em Assembleia Geral da Ordem a estratégia para o futuro da Trienal. A partir daí é começar a trabalhar com base na estratégia que for validada. A 1ª edição foi preparada em menos de um ano num ambiente de permanente hostilidade – da Direcção Nacional da Ordem. Agora, com outra tranquilidade, com dois anos para trabalhar e com a experiência adquirida, é possível preparar um evento de qualidade muito superior ao primeiro.
+arq Com o alerta sobre o território português, mais propriamente sobre a cidade, a eleição do tema de “vazios urbanos” da Trienal, que é transversal a qualquer habitante de qualquer cidade, tem como intenção consciencializar os cidadãos para essas questões?
JM - A um certo nível, tem. Por um lado, através de uma tomada de consciência, e, por outro, pela pertinência de existirem inúmeros vazios urbanos “estratégicos“ na cidade de Lisboa, que era a cidade onde instalávamos os núcleos centrais da Trienal e que decidimos assumir como uma cidade de estudo. Interessava-nos que fosse abordado um tema que as pessoas conseguissem facilmente perceber, porque percorrem as ruas e vêem Alcântara semi-demolida, vêem os viadutos e o território por baixo, que é um não-lugar, que não tem qualquer tipo de aproveitamento, etc. Discutimos vários temas, chegámos a pôr hipóteses mais ligadas à sustentabilidade que pusemos de lado porque em Portugal ainda não existe uma produção consistente em quantidade e qualidade. Mas, na realidade os vazios urbanos também tocam o tema da sustentabilidade. Investigações dos últimos dez-vinte anos provam que, uma cidade compacta, é muito mais sustentável, muito mais “verde“, do que uma cidade-jardim. Como eu já vi escrito, a cidade-jardim é mais verde em termos retóricos, mas a cidade compacta é mais sustentável. Numa das suas últimas edições, a Arquitectura Viva [Arquitectura Viva nº 112 (I-II-2007)] aborda esse tema. Os consumos de energia de edifícios e de transportes significam três quartos das emissões de carbono para a atmosfera. O efeito sprawl – o crescimento das cidades em mancha de óleo – aumenta as distâncias a percorrer por automóveis, a iluminação, etc., e, portanto agrava brutalmente a emissão de carbono para a atmosfera. Hoje em dia, a consciência é muito clara, temos de encontrar processos compensatórios desse sprawl e pôr o enfoque, sobretudo, na cidade compacta. A nossa proposta não era preencher os Vazios Urbanos na totalidade. Poderíamos até chegar a uma situação em que, depois de uma investigação sobre um determinado vazio, a intervenção poderia ser muito subtil sem propor qualquer preenchimento, mas esses vazios adquiririam um novo significado. São, na realidade, muitas vezes, formas de dar mais consistência e, eventualmente, um sentido mais interessante e compacto ao tecido urbano. Lisboa tem problemas de desertificação que podem ser ultrapassados inserindo no seu interior outras valências, formas de atracção e condições para as pessoas viverem dentro da cidade, nomeadamente, outro tipo de preços, para além das qualidades patrimoniais e ambientais.
+arq O território está praticamente acabado, não é?
JM - Não iria tão longe. Mas outro problema do sprawl é a velocidade com que consome o território. Nós somos um país pequeno, daí que a construção em altura não me atemorize absolutamente nada. É, até um certo nível, coerente com a ideia de uma cidade mais compacta. Vemos que, em zonas da nossa faixa litoral temos quase cidades non-stop. Neste ritmo, dentro de algumas décadas teremos a imagem desoladora de toda a faixa ocidental de Portugal urbanizada… À zona mais industrial de Itália – Milão, Bolonha, Génova –, os geógrafos já se referem como uma urbe contínua…
+arq Passados cinco meses sobre o encerramento da Trienal de Arquitectura de Lisboa, qual foi o seu momento mais importante?
JM - O da inauguração, no Pavilhão de Portugal, com aquele mar de gente. Quase não cabia ninguém debaixo da cobertura suspensa. Foi um momento emocionante, para nós, extraordinário. A conferência internacional também foi muito interessante, embora seja defensor de que, na próxima Trienal, se deve mudar radicalmente o seu formato. Acho que correu muitíssimo bem, ouvi-o da boca de pessoas insuspeitas como a Saskia Sassen, o Tom Mayne ou o Mark Wigley. Mas, para a tornarmos mais eficaz em termos culturais e financeiros, deve envolver menos, mas mais tempo, convidados de outros países, para poderem produzir intervenções mais completas e poderem interagir melhor com as pessoas que estão a assistir, eventualmente com um workshop, produzindo coisas. Mas houve outros momentos, como o concerto do Mário Laginha, que achei espectacular, mesmo emocionante. No meu caso porque fiz uma viagem de alguns dias com ele, a visitar várias obras de arquitectura, desde o século XII, até ao início deste século, a partilhar referências, princípios compositivos. O claustro de D. Dinis do Mosteiro de Alcobaça foi das primeiras paragens. Olhámos para uma série de arcos que aparentemente são iguais. Há uma estrutura rítmica repetitiva – noção presente na música – e, quando nos aproximamos, vemos capitéis com temas vegetais, depois com temas animais, depois geométricos. No campo musical, era como se, com uma mão, o músico tocasse uma estrutura repetitiva e, com a outra, sobrepusesse variações. Esse nosso diálogo de dois dias, tempo em que viajámos juntos de norte a sul, forneceu estímulos e pistas para o Mário compor aquele disco. Eu nunca escutei nada senão no dia em que ele tinha o disco terminado. E depois o concerto esgotou. Foi um sucesso como espectáculo, como conjunto de composições e um sucesso também na crítica especializada. E isso tem a ver com um dos lados mais interessantes desta Trienal, não teve apenas momentos altos, não foi algo “volátil“, foram produzidos inúmeras coisas que ficam, projectos para problemas concretos, livros, Cds, música, etc.
+arq O que é a matéria?
JM - É um dos vocábulos possíveis para compor o meu texto que é a arquitectura.
+arq Trabalha com matéria ou com material?
JM - Com a matéria e o imaterial, a luz, o som ou a proporção. A matéria tem mais a ver com a qualidade física intrínseca de algo, com o seu lado tectónico, mas deve ser pensada num contexto mais amplo.
+arq É nessa perspectiva que referiu as lousas da cozinha da casa do seu avô?
JM - Diria que sim. Um dia, quando o meu avô decidiu por um pavimento de mosaico hidráulico sobre o xisto, a cozinha mudou radicalmente. E a minha relação com aquele espaço também.
+arq O que é o sentido do lugar?
JM - Também passa pela matéria. E, naquele caso, muito fortemente, porque quase que se construía sobre a rocha natural. Como na Casa da Cascata. Ali não havia uma cascata, mas havia uma espécie de riacho de rocha pela rua fora. Circulávamos de automóvel com muita dificuldade, mas era extraordinariamente belo. Hoje foi banalizada com a chegada da “modernização“. Por mais níveis de abstracção ou inovação que se proponha introduzir na sua abordagem, o sentido do lugar é qualquer coisa de obrigatório no trabalho de um arquitecto. Mas, o conceito de lugar tem mudado muito. Pode ser algo concreto ou pode ser algo muito mais difícil de definir. Hoje em dia quando as pessoas vivem numa comunidade mundial baseada na comunicação através da internet, muitas vezes as compras são feitas pela internet, essa definição de lugar é construída a partir de elementos tangíveis, numa lógica local e outros de qualidades imateriais e contornos planetários.
+arq São os não-lugares?
JM - Diria que são os Novos-lugares. Uma pessoa que vive numa determinada casa está obviamente encaixada num determinado contexto geográfico, geológico, climático e por aí adiante. Mas, a pessoa que vive hoje nessa casa não é a pessoa que vivia há vinte anos atrás. Pelo menos, é claro que não vive da mesma maneira. Tem uma relação completamente diferente com o quarto, a casa, o mundo. A pessoa que vivia há vinte anos atrás saía à rua para comprar qualquer coisa, fazia um projecto de arquitectura e não tinha faxes nem internet. Era uma actividade muito mais corporal e necessitava de muito mais espaço. Por isso, um lugar para onde hoje desenhamos algo suscita vários e novos níveis de compreensão.
+arq Acredita ser possível produzir uma arquitectura massiva e, simultaneamente, frágil e sensória?
JM - Sem dúvida...para mim é óbvio. Nem acho que seja contraditório. O Mosteiro de Alcobaça é todo feito de blocos maciços de pedra com um certo peso. Mas, quando caminhámos pela nave, com aquelas proporções, feita de uma só tipo de pedra clara, com uma luz subtil que vem de cima…e se referirmos o som... com o Mário Laginha percorremos as naves a fazer exercícios vocais. Produzíamos um som, calávamo-nos e o som propagava-se por aqueles espaços todos diluindo-se numa espécie de silvo fugaz. Portanto, aquela obra muito concreta de pedra espessa, etc., revelava uma elegância e uma delicadeza extraordinárias, também porque a arquitectura não é só aquilo que o olho vê. Muitos autores - Sejima-Nishisawa, Zumthor, etc. - referem isso continuamente nas suas reflexões. Tem a ver também com temperatura, com as sonoridades que a habitam, com o caminhar, com coisas pensadas e outras eventualmente acidentais. Referem-se a isso como “atmosfera“, eventualmente como uma categoria estética da arquitectura.
+arq O tempo é um instrumento da arquitectura, ou um seu elemento?
JM - É as duas coisas. O tempo é das matérias mais importantes na activação do fascínio que a arquitectura exerce sobre as pessoas. Acrescenta densidade à arquitectura, mas, é também algo que valida obras, muitas vezes de qualidade inferior ou medíocre. O tempo, pelo que significa de acumulação de memórias, de patine, de registo de outras épocas, tem, de facto, esse papel de acrescentar fascínio e de “validar” obras de outros tempos. O tempo pode ser também matéria de trabalho, quando nós desenhamos um edifício. No projecto do Metropolis, o conceito de movimento que explorámos é indissociável de uma noção de tempo. No desenho desse edifício, que é algo facetado e cubista, os planos são desenhados com muita precisão, para que, funcionando com o tempo de rotação do sol em redor do edifício, não só o edifício se vá transformando em termos expressivos, mas o sol entre gradualmente nos apartamentos. O tempo é daquelas coisas que uma cidade necessita para ganhar consistência. É parte do problema da Expo 98, onde tem que passar mais tempo para que seja gravada nas memórias das pessoas e comece também a residir no espaço afectivo das pessoas. O bairro onde eu vivia em Lisboa, que, diria, não tem qualquer interesse enquanto espaço urbano ou arquitectónico, pertence aos meus afectos porque cresci ali. E, no entanto, não é nenhuma obra de arquitectura extraordinária. Eu e os meus amigos de infância, as pessoas que ali habitaram, encontramo-nos ali, e damos-lhe um valor que tem mais a ver com nostalgia do que com razão ou dados objectivos. Tem a ver com esse tempo que passou e que passámos ali. Não tendo grande valor arquitectónico, mas, seria para mim uma violência assistir à demolição daquele bairro.
+arq O que mudou na arquitectura, na última década?
JM - Vivemos um tempo de mudanças a um ritmo vertiginoso. Vivemos o tempo da mobilidade, da fragmentação e da comunicação. Se recuarmos ao período do Barroco, ou do Renascimento, os códigos de composição eram mais claros, estabelecidos e o desafio do arquitecto passava muito por saber manejar esses códigos de forma superior. Hoje cada arquitecto tem que formular os seus códigos. Têm que sair das suas “entranhas“ e têm que ser pessoais. Se não for assim, não é honesto. Através dos media, somos bombardeados com inúmeras experiências e formas de codificar ou compor a arquitectura. A partir do advento da internet, esta partilha a nível mundial passou a ser em tempo instantâneo. É muito positivo mas, por outro lado, é extraordinariamente complexo termos a convicção do que nos interessa fazer perante tantas referências disponíveis. Portanto, diria que vivemos num tempo quase de caos e de uma espécie de babel de códigos de composição arquitectónica. Abre-se um espaço de grande liberdade que significa também grandes dificuldades. Contudo, em Portugal, quando se olha de fora, há uma certa homogeneidade, há uma certa coerência entre caminhos aparentemente muito diferentes. No ano passado dei uma conferência em Barcelona e no fim, um professor disse “Curiosamente, vocês desenham os edifícios e pintam-nos quase todos de branco”. Só nesse momento é que me apercebi de que isso era verdade, e é uma particularidade do nosso país. Nos últimos dez-quinze anos, em Portugal, tem-se conquistado algum optimismo e dignidade na arquitectura e um sentido de liberdade que não houve em períodos anteriores. Depois do Pós-Modernismo - fase bastante triste da nossa arquitectura – até ao virar do século, viveu-se num tempo de grande homogeneidade. Havia uma validação quase primária de determinadas formas de compor que remetiam para uma espécie de arquitectura do regime. Como é evidente o tempo “não perdoa“ e obriga à revisão das convicções. Neste momento, temos uma série de bons arquitectos que seguem caminhos distintos. Por vezes parece que estão alheados, mas só aparentemente, de coisas que tradicionalmente eram matérias de trabalho em Portugal. Mas, acaba quase sempre por haver uma série de ligações à nossa cultura. Não são é tão óbvias, e eu acho isso bastante mais interessante.
+arq Que preponderância tem o arquitecto na sua contribuição para a sociedade?
JM - O arquitecto está muito dependente da sociedade e da solicitação que esta faz do seu trabalho. A Trienal, entre outras coisas, propunha-se dar uma ajuda a esse nível. A arquitectura é uma profissão extraordinária porque nos permite desenhar algo que passa a pertencer ao imaginário e cultura colectivos. Essa nossa capacidade de deixar marcas profundas, claras - por vezes perversas…- na sociedade da qual fazemos parte é um privilégio superior. Um privilégio e uma grande responsabilidade. Acredito que a arquitectura em Portugal tem dois padrões distintos: um que está mais ligado à identidade portuguesa, a um certo estado de espírito que é pessimista e pode caminhar no sentido do optimismo, da construção do amor-próprio, de um certo orgulho. E sinto-o quando vou fora do país, onde os arquitectos portugueses são olhados com bastante respeito e curiosidade. E isso é um contributo para o país, para a nossa sociedade. Outro contributo é o poder de transformação progressivo do meio em que as pessoas vivem. Aqui em Lisboa houve o caso da Expo 98. É um caso importante. Em pouco mais de dez anos construiu-se uma parte da cidade que, aos fins-de-semana, está cheia de gente. Um turista vem cá e, incontornavelmente, tem de ir ali. Lembro-me de uma entrevista da Ana Vaz Milheiro em que o Mark Wigley dizia que numa sociedade tão cheia de violência e de capacidade de destruição e de iniquidade, etc. - não me lembro das palavras todas -, era extraordinário ver um grupo profissional tão optimista e que punha o seu empenho em valores humanistas e positivos. Acho isso uma contribuição notável.
+arq ...mas a medicina é semelhante...
JM - Penso que sim. Mas no meu caso suspeitei que, provavelmente, não teria perfil para exercer medicina. Estudei o que era necessário até ao momento de entrar na faculdade, mas felizmente não fui por ali...o que faço preenche-me bastante.
+arq A circulação e o fluxo de estudantes, o êxodo de estudantes para o estrangeiro, nomeadamente com maior intensidade para o resto dos países da Europa, poderá, de alguma forma e daqui a um certo tempo, enriquecer a arquitectura portuguesa?
JM - Já está a enriquecer. Estive recentemente em Itália, no fórum da Europan e falou-se muitas vezes disso, porque é uma experiência comum a todos os países da Europa. Nas aulas que dou em Barcelona, inevitavelmente comparo os alunos dessa Faculdade com os portugueses da mesma faixa etária. Acho que Portugal, apesar de ter imensos problemas ao nível do ensino, tem resultados, em termos de formação de arquitectos, bastante positivos. Têm uma preparação que os direcciona, com um certo pragmatismo, e nalguns casos rigor e exigência, para entrarem no mundo do trabalho. Penso que há também uma certa desinibição cultural, contrariamente, por exemplo, aos italianos em que o legado cultural é pesadíssimo. E a crise na arquitectura daquele país já se arrasta há pelo menos duas décadas. Há muitos arquitectos portugueses jovens a trabalharem em ateliers noutros países, muitos a ganharem concursos fora do país, a darem conferências, etc. Para isso muito contribuiu o programa Erasmus. Antes do 25 de Abril, num período em que as nossas fronteiras estavam fechadas e em que a comunicação era filtrada, as pessoas viviam com uma ideia um bocado distorcida do que era a realidade mundial. Cresceu uma espécie de complexo de inferioridade e criaram-se mitos que originaram inibição. Esses mitos desmontam-se rapidamente quando os estudantes circulam, vivem e trabalham noutros países lado-a-lado com outras pessoas . Percebem claramente que não têm cromossomas a menos…que podem produzir obras de qualidade tão boas ou superior às dos seus colegas finlandeses, dinamarqueses ou holandeses.
+arq Será que existe arquitectura portuguesa?
JM - Diria antes, que no mundo da arquitectura, existe um espaço cultural português.
+arq Será que se vai perder, pela velocidade da informação ou pela globalização?
JM - Esse risco existe.... Provavelmente vai deixar de existir a arquitectura portuguesa tal como a conhecemos. Mas isso é um sinal de que a cultura evolui, característica própria das sociedades dinâmicas e das culturas avançadas. É um sinal de grande vitalidade. O que sinto, olhando a produção da ARX, é que, sendo eu e o meu irmão pessoas altamente curiosas, que viajam, que lêem, que se interessam por coisas que existem noutros quadrantes do mundo, a realidade é que nós vivemos num país rico de referências, carregado de aspectos que nos fascinam e que acabam sempre por influenciar o nosso trabalho. A globalização tem uma primeira fase de fascínio e de “vertigem“ de experimentar o novo material ou tendência que existe à disposição, mas, as novidades também perdem o seu “brilho“ inicial. Um arquitecto, quando produz uma obra extraordinariamente simples e bem desenhada, coisa muito difícil de se conseguir fazer, tem um grau de satisfação tal que vai querer experimentar outra vez. É bom passarmos a ter um espectro tão largo que nos coloca coisas novas à disposição, mas temos em Portugal coisas muito fortes, desde a própria arquitectura tradicional. Repare, por exemplo: o branco, que é a cor com que se pinta a maioria dos edifícios em Portugal, possibilita-nos ter nas nossas obras um contraste, uma leveza, uma nitidez de sombras, um dramatismo formal que tem a ver com o facto de se trabalhar com matéria essencial. É algo a que nós queremos sempre voltar e que pertence à herança cultural do nosso país.
+arq Com a luz, também. O branco ligado sempre à luz...
JM - Sim, ligado à luz. Artistas minimalistas formularam raciocínios muito interessantes sobre isso. Piero Manzoni, a propósito dos seus Achromes brancos, escreveu que “ a matéria transforma-se numa energia pura (…) procurar descobrir o sentido ilimitado de um espaço total, de uma luz pura e absoluta“. É uma afirmação eloquente e possível no campo da arquitectura.
+arq Qual é a importância do desenho?
JM - Não sendo um discípulo da Escola do Porto, cuja formação sempre baseou muito a produção no desenho, para mim o desenho não é forçosamente feito com grafite sobre uma página branca. Construir uma maqueta é executar um desenho. Anotar coisas sobre essa maqueta com grafite ou com uma lâmina ao cortar um bocado são formas de anotação e de desenho. Os conceitos e as imagens podem pairar na nossa mente, mas nós acabamos sempre por percorrer processos de aproximação gradual, perseguindo uma ideia em que essa ferramenta do desenho é insubstituível. Mas para mim, tão insubstituível como o desenho é a ferramenta da pergunta, da dúvida, do saber ver e a ferramenta do saber não ter preconceitos. Ou como o é a ferramenta do procurar fixar, como diz Zumthor, uma atmosfera que o tocou na rua, numa cidade qualquer. Como quando entrei no Panteão de Roma, que superou todas as expectativas que tinha criado. Eu não sou um desenhador compulsivo. Há arquitectos que desenham a toda hora, mas, eu não o faço. Para mim, o desenho tem uma função quase exclusivamente objectiva e prática. O meu desenho é extraordinariamente racional, ou seja, é uma ferramenta, mesmo. É raríssimo fazer um desenho com sentido lúdico. Mas, quando nós desenhamos muito bem, pode até tornar-se traiçoeiro. Uma imagem com grande poder de sedução pode exercer um fascínio que nos inibe a capacidade para abdicar dela e passar a outra experiência. Paradoxalmente, o desenho pode chegar a ser contraproducente.
+arq Mas isso também se passa nos projectos, com uma ideia ou com um conceito que não funciona...
JM - Pode passar-se. Talvez por isso é que eu, com os meus alunos e como metodologia aqui no atelier com o Nuno, insisto sempre numa coisa: quando estamos a discutir conceitos, embriões dos projectos, não aceito um esquisso ou uma maqueta. Não há verdades na arquitectura, é um lugar comum estar a dizer isso, mas para um determinado contexto, quero ver lado-a-lado três ou quatro abordagens completamente distintas e fundamentadas. E, a partir dai, começo a discussão, tentando encontrar as fragilidades de cada um desses embriões e, eventualmente, aquilo que pode ser sólido e pertinente em cada um deles. Muitas vezes, acabamos por optar por uma, e alunos ou colaboradores percebem que foi importante abdicar das outras. Mas foi importante fazê-las, para perceberem qual é o caminho que devem percorrer. Muitas vezes, surge uma fusão de várias hipóteses. Isso é uma metodologia que temos perfeitamente interiorizada e que nos ajuda a não nos afeiçoarmos demasiado a uma primeira ideia, ou a um desenho fascinante.
+arq Havia uma ideia, de que tinha falado, que era a de lançar uma instituição em Portugal que pudesse dar uns prémios de arquitectura, como os prémios FAD. Seria uma instituição que, acima da Ordem dos Arquitectos, pudesse reunir...
JM - Diria antes, em colaboração com a Ordem. Acho que a Trienal deve fazer e já o fez. O que se propõe é que distinga uma carreira. A Trienal deve ter um papel que não seja só o de organizar eventos, de três em três anos, desempenhando um papel de permanente actuação no âmbito da arquitectura, em Portugal e no estrangeiro. Por exemplo, deveria eventualmente contribuir para que Portugal possa votar no Prémio Europeu de Arquitectura Mies van der Rohe. Portugal não vota porque não tem um instituto de arquitectura com um perfil que cumpra os pressupostos para poder ter assento nesse prémio. Será que a Trienal pode ter esse perfil? Deve ser averiguado, porque é fundamental que os arquitectos portugueses estejam presentes nos momentos de decisão, pelo menos simbólicos, com importância no contexto mundial. Devemos resignar-nos a ser uns outsiders? Evidentemente que não. Estive recentemente em Itália, com gente de dezenas de países e torna-se claro que Portugal é um país com imenso potencial. Até ao nível de organização, somos melhores do que temos consciência. Devemos é abandonar este estado de alma permanentemente pessimista da nossa sociedade. A Trienal tem a ver com isso mesmo. É, em boa medida, uma manifestação de inconformismo, de quem se recusa a aceitar esta tendência inata para o fatalismo e a resignação. Acima de tudo, é uma radical demonstração de optimismo. E, embora isso não seja tudo, está invariavelmente na base das grandes realizações. |