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Sobre a Biblioteca Municipal de Ílhavo

In Revista Pulsar nº6 / 2006

 

O prémio atribuído à arquitectura da Biblioteca Municipal de Ílhavo tem um significado especial sendo este um dos prémios mais conceituados a nível de arquitectura?

NM: Este prémio não é especialmente conceituado. É uma distinção internacional entre muitas, neste caso a integração num grupo de 33 obras seleccionadas de uma grande variedade de países, por um juri constituído para o efeito pelo Chicago Atheneum (Museu de Arquitectura e Design de Chicago). Este museu tem a particularidade de ser o único museu de arquitectura dos Estados Unidos, numa cidade mítica para os arquitectos, onde viveram e trabalharam grandes mestres como Louis Sullivan, Frank Lloyd Wright ou Mies Van der Rohe, entre outros. É por isso uma cidade em que existe uma sensibilidade muito particular para a cultura de Arquitectura.

Para o arquitecto é essencial ser reconhecido?

NM: As obras são o que se reconhece. Independentemente de uma obra ser boa ou não, ela é sempre o resultado do trabalho de muita gente, começando logo no dono da obra, que é quem primeiro a pensa e faz com que seja possível. Depois vem a equipa projectista, que é muito extensa e finalmente a empresa construtora, incontornavelmente maior. Uma boa obra é antes de mais um objectivo, que terá que ser comum a todo o grupo, mas este facto por si só  não chega. É necessário que todo este conjunto de pessoas reúna os recursos (culturais, técnicos e financeiros) e a vontade diária de o alcançar. Esta atitude, que não dá muito mais trabalho nem é mais caro, é muito mais cansativa especialmente pelo choque de mentalidades que provoca no nosso país, onde a regra generalizada é fazer de qualquer maneira. Em geral na opinião pública, quando se fala da construção fala-se de quantidades ou do facto de se fazer ou não determinada obra. Nunca se procura saber as suas qualidades, ou sobretudo se determinada obra poderia ser melhor. As exigências de qualidade no nosso país ainda estão ao nível do telemóvel ou do automóvel. Seria particularmente importante que existisse desde logo nas construções que utilizam dinheiros públicos, já que são investimentos de todos nós. As pessoas ainda não se aperceberam que o Estado somos todos nós.É evidente que o reconhecimento trás muita satisfação e sobretudo motiva, e muito, a continuação da procura de melhorar este estado de coisas.

Numa recuperação de património construído, a premissa do arquitecto é a memória do passado ou o impacto do presente? O que pesa mais, o sentido histórico ou a utilidade?

NM: O que nos interessa quando construímos é essencialmente produzir património ou seja, garantir que aquilo que se constrói tenha qualidades culturais e construtivas que lhe permita e justifique o seu prolongamento no tempo. Construímos sempre para o presente e futuro, independentemente de se tratar de um edifício de raíz ou de uma reabilitação. Temos, tal como no passado outros o tiveram, o dever de qualificar a construção que deixamos feita com a cultura do nosso tempo. A história é um encadeado destes factos. A utilidade específica de um edifício tem um interesse marginal na história da arquitectura. Os edifícios históricos que nos chegaram tiveram em geral vários usos e foram suficientemente flexíveis e qualificados para merecerem reapropriações e continuidade de vida. O interessante de trabalhar com património é a dimensão que este confere ao todo final. Trata-se de uma história que já vem parcialmente escrita à qual se vão acrescentar alguns capítulos que mudarão, ou não, o sentido global da peça.A história do passado só nos poderá interessar pela sua dimensão futura, ou seja, pela sua continuidade e vitalidade cultural.

É facil ser arquitecto em Portugal?

NM: Suponho que tal como em qualquer outra profissão existem várias formas de ser arquitecto, tendo em conta a preparação de cada um e os objectivos que se pretendem atingir com o seu desempenho. Existem concerteza estratégias profissionais mais fáceis que outras. Nunca tivémos facilidades nem tão pouco as procurámos. A existirem são pouco motivadoras, não me parece que qualidade e facilidade venham associadas. Num país sem cultura de exigência de qualidade, qualquer bom profissional, independentemente da sua área de trabalho, terá que lutar contra o estado das coisas. E terá que o fazer se procurar deixar para trás um país melhor do que aquele em que nasceu. Na nossa área de trabalho (construção) penso que no futuro será vital construír muito menos (e demolir muito) e exigir mais qualidade daquilo que se constrói, para reparar esta devastação da construção incontinente da nossa paisagem. Aí penso que os arquitectos, não todos, apenas os que procuram para lá do fácil, poderão vir a ser fundamentais.