Casa em Leiria Modernidade e Sobriedade
Semanário Sol - Casas e Ideias 23 de Setembro de 2011 Pág. 4-5 Fotografia: FG+SG fotografia de arquitectura | architectural photography • ultimasreportagens
Texto de Fernanda Pedro
As casas particulares são aliciantes para os arquitectos. Sobretudo pela criatividade e pelas relações pessoais que se estabelecem com os proprietários. A casa de Leiria projectada pelo atelier ARX, dos arquitectos Nuno e José Mateus é uma prova disso.
A construção de moradias continua a ser um dos nichos de mercado da arquitectura portuguesa. E se de momento existe uma escassez de projectos de obras públicas e de empreendimentos de habitação, a casa particular continua a ser uma forma de os arquitectos portugueses darem “asas” à sua criatividade. É o caso do atelier ARX, dos arquitectos Nuno e José Mateus. O seu mais recente projecto nesta área fica localizado em Leiria. Na freguesia de Pousos Uma casa moderna, de linhas direitas, onde o betão branco se impõe como paisagem.
Como se situa num ponto alto, a asa configura-se como uma espécie de miradouro o uma vista sobre a cidade de Leiria. E para aproveitar da melhor forma este desafogo visual, os proprietários compraram três lotes, na linha da frente, sobre a encosta. Embora cada lote permitisse a construção de cave mais dois pisos, normalmente compactos e isolados no meio do terreno, abria-se com este agrupamento a possibilidade de construir uma casa mais baixa, que “abraçasse” proporções mais rasantes, de espaço de jardim.
«A ideia não surgiu num impulso. Pelo contrário, foi ganhando nitidez a partir da evolução de uma ideia inicial que o dono da obra tinha para o projecto. Esta ideia inicial foi o motor de um processo relativamente alongado de pesquisa, sobre o qual se foram tomando decisões», refere o arquitecto Nuno Mateus.
De acordo com a memória descritiva, a casa surge de uma forma directa de como a equipa de arquitectos observou essa realidade. Tratando-se de uma casa privada de grande dimensão para os padrões locais, optou-se por dividir o volume de construção em duas partes. Metade da construção é enterrada, como um negativo no terreno, assumida como fazendo parte dele. Sobre essa metade de terreno, é pousado um segundo volume, longo e achatado, de betão branco aparente.
Casa Moderna Mas Sóbria
Segundo Nuno Mateus, «é una casa que tem uma presença relativamente sóbria na esfera pública e rica no que propicia de possibilidades de vida privada. Conceptualmente trata-se de uma casa-terreno, sobre o qual se caminha, e em que a luz penetra através de um conjunto de incisões que se transformam em pátios».
O projecto arquitectónico foi desenhado ara que no volume inferior ficassem integradas as áreas técnicas, de apoio ou de utilização mais ocasional. No volume superior, as áreas sociais agrupam-se em torno do pátio principal, e os quartos de um segundo privado. A principal particularidade desta casa passa-se ao nível dessa dialéctica entre a metade subterrânea e «natural» da casa, e a metade superior, flutuante e «artificial», e a vida que flui entre uma e outra.
«Entre a face introvertida, intimista, de penumbra ou de luz reflectida, e a sua face aberta, permeável e luminosa, onde se torna o olhar para o horizonte longínquo. Para lá disso, tudo se trata, como sempre nestes projectos, de entender a vida e o temperamento de quem nos procurou para desenhar uma casa, e de tentar conferir-lhes um novo significado para o dia-a-dia», lê-se na memória descritiva.
Mas como é frequente nos projectos, as dificuldades surgem n processo de aprovações. «Neste caso queríamos construir uma casa mais baixa do que o referido no alvará, o que se tornou relativamente complicado. Foi necessário proceder a uma alteração do alvará, e perder mais um ano em burocracias», lembra o arquitecto.
Contudo, depois de terminar o projecto os arquitectos sentem satisfação e alívio. Estes profissionais sabem que projectar uma casa é uma tarefa de encontro de perspectivas e desejos, sobre um programa extremamente pessoal. «Uma casa pode e deve ser algo maravilhoso, como um sonho que é. É muito difícil lá chegar por uma série de factores, muitos deles contraditórios. Entre eles situam-se as nossas próprias limitações», revelam os arquitectos.
Nuno e José Mateus estão conscientes de que os projectos de casas são muito aliciantes, embora muito consumidores de horas se os levarem até ao fim, com toda a pormenorização necessária para uma boa execução e sobretudo com as visitas a obra a garantir a sua adequada implementação. São por regra projectos deficitários e por isso muitos arquitectos evitam fazê-los. São em geral compensados financeiramente por outros de maior dimensão. «Contudo, pelo prazer que nos dão, pelas relações pessoais que se desenvolvem com os donos de obra, que muitas vezes se tornam amigos, esperamos poder vir a ter oportunidades de desenhar e construir novas casas», concluem Nuno e josé Mateus.
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