VISÕES ABSTRACTAS (*)
A realidade da arquitectura portuguesa é hoje mais fragmentada do que há anos atrás. Mais do que falar sobre o que é a arquitectura portuguesa, faz sentido falar da produção dos arquitectos portugueses. E essa diversidade de caminhos tem vindo a sublinhar-se na última década.
Ainda assim, é uma produção onde as ligações a formas ancestrais de arquitectura popular. E isso é compreensível num país onde esta possui uma beleza invulgar, desde as casas tradicionais do norte construídas em blocos de pedra de granito, aos abstractos volumes brancos do sul. Penso que essa vinculação é extraordinariamente importante num tempo em que, com a globalização, se esbatem as fronteiras, se enfraquecem especificiadades locais e se precipitam culturas para um "caldo" homogéneo mais pobre.
Mas, simultaneamente, o meio da arquitectura portuguesa tornou-se muito mais aberto ao exterior, tanto pela circulação de estudantes e jovens arquitectos por outros países de grande importância neste campo (Espanha, Suiça, USA, Holanda,...), mas também através do acesso rápido às publicações de todo o globo e, em tempo instantâneo, pela Internet. Por outro lado, é cada vez mais frequente ver arquitectos e pensadores de outros países darem palestras em Portugal, mas, de igual modo, muitos arquitectos portugueses deslocarem-se ao estrangeiro para participar em exposições, seminários e dar palestras.
O resultado muito interessante do encontro entre estas duas realidades é bem visível quando se viaja pelo nosso país, como eu fiz, ao longo dos 26 programas sobre arquitectura de que fui autor para uma estação de televisão privada tipo CNN.
Penso que o melhor contributo que posso dar é propor que me acompanhem numa viagem pela arquitectura de Portugal, de norte a sul e ilhas, através do meu olhar. Uma visita a 11 pequenos edifícios, na maior parte dos casos desenhados por arquitectos relativamente jovens (35-45). Não pretendo assumir a escolha como os melhores, mas apenas como obras que visitei e me deixaram uma impressão forte.
Deixei deliberadamente de fora figuras de grande relevo conhecidas internacionalmente, como Siza Vieira e Souto de Moura, para poder revelar o extraordinário potencial demonstrado por muitos outros que, não sendo eventualmente conhecidos além-fronteiras, asseguram para a nossa arquitectura um futuro promissor. E como estes de quem falarei, há muitos outros de valor equivalente.
AFIFE
A arquitectura popular do Minho possui um peso e um sentido de perenidade muito fortes. Talvez por ser construída em robustos blocos de granito, pedra que forma os afloramentos rochosos que caracterizam aquela paisagem montanhosa as casas tradicionais do Minho parecem ter sempre pertencido àqueles lugares. Em contraste, esta casa em Afife, composta por três paralelepípedos arrumados no terreno ao longo do muro que o limita a sul, surge quase desajustada do contexto e com uma leveza e um carácter aparentemente transitório ou efémero. Quase como se estivéssemos perante contentores pousados temporariamente naquele lugar.
Sentado à minha frente no seu atelier, com desenhos da casa sobre o estirador, o Nuno (Brandão Costa) surpreendeu-me. Aquela arquitectura nasceu precisamente do seu interesse pelas casas tradicionais do Minho, muitas vezes fragmentadas em diversos volumes: habitação; dependências para o gado; espigueiros, etc. Para reforçar a ligação desta casa ao meio rural utilizou sobretudo materiais manufacturados: blocos irregulares de pedra no pavimento exterior; madeira extraída de sulipas no interior; betão aparente; caixilharias em madeira e paredes rebocadas com cimento impregnado de pigmento negro.
É uma casa que sugere um estilo de vida cosmopolita, mas onde ressonâncias desse imaginário rural nos chegam de formas que não são nem directas nem óbvias. É aqui que me parece que se encontra a principal qualidade da casa: nos aparentes paradoxos que ela encerra.
ALVITE
Neste território montanhoso de vegetação intensa, situa-se o lote estreito e comprido - espécie de canal entre os carvalhos - para onde Álvaro Siza (AS), filho do famoso arquitecto Siza Vieira, desenhou uma casa oblíqua. A morfologia acidentada do terreno, o facto de ser orientado para o sol e para uma paisagem magnífica a sul, estão na origem desta arquitectura.
O que AS propêo é uma espécie de escada gigante que liga o extremo inferior a sul, ao topo superior a norte, por onde se entra na casa. Ao longo do lado poente, duas escadas sobrepostas (uma interior, outra exterior), permitem-nos percorrer o terreno (e a casa) de alto a baixo. É por isso uma espécie de casa-caminho.
A sua forma semi-enterrada cruzada com um terreno também oblíquo, origina expressões totalmente diferentes nos seus quatro lados, distantes de imagens reconhecíveis de casa: a sul, é evidente que com a rotação de alguns volumes, o arquitecto procura fixar vistas que elege no horizonte variável. A norte julgamos estar perante uma plataforma de asa delta, ou um miradouro. Foi aqui que desci ao interior através de uma fenda, como quem desliza para as profundezas; a paisagem que antes dominava desaparece e vamos descobrindo um interior quase labiríntico e ilusório que lembra visões de Piranesi ou Escher. Pontualmente, a paisagem é-nos devolvida por janelas com os tais enquadramentos certeiros, e, gradualmente, a inquietação inicial cede à tranquilidade.
O espaço social – cozinha; sala de estar; sala de refeições – é a plataforma nivelada, que não se intui do exterior, que dá a estabilidade necessária para se viver neste mundo aparentemente problematizador de uma vida cómoda.
De volta ao exterior, o carácter artesanal e por vezes tosco do betão que constrói e reveste a casa, parece natural neste meio rural. Na sua textura destaca-se o brilho das folhas de mica, também presentes na terra em redor.
Entre o arvoredo, a casa emerge como uma cintilante massa telúrica.
ÉVORA
Há uma casa em Évora, desenhada por João Trindade em que se partiu de meras necessidades práticas, para a transfigurar numa alegoria em torno de duas personagens. É esse o seu argumento mais invulgar, com autoria igualmente dupla: o arquitecto e uma artista.
A casa existente tinha sido construída sem projecto ao longo de anos, em que o proprietário dava instruções directamente ao mestre de obras. Gradualmente, a casa tomou forma e revelaram-se problemas previsíveis: falta de qualidade arquitectónica e construtiva e área a mais do que permitiam os regulamentos.
O projecto de legalização começaria por ser um processo de subtracções: telhados defeituosos deram lugar a coberturas planas; compartimentos em excesso originaram ocos ou espaços abertos ao exterior; e uma sala central sem luz natural transformou-se em pátio. O perímetro da casa foi redefinido, assemelhando-se agora a um simples paralelepípedo ao qual se extraíram massas. A pintura negra em dois destes vazios-espaços sublinha a sombra e prepara um cenário ambíguo, onde a percepção do visitante vagueia entre vestígios ainda reconhecíveis da casa inicial e aquilo que ela é agora. São também refúgios (alpendres) nos lados sul e poente onde o sol é mais intenso e locais de estadia virados para a piscina e pinhal com que confrotam.
Chamada a participar, a artista Fernanda Fragateiro viu em L'attente L'oubli de Maurice Blanchot, um paralelo com a natureza dupla da casa: as personagens do livro são duas pessoas e uma só.
Ao inscrever na casa frases retiradas do livro, FF adensou o seu mistério, a sua ambiguidade e trouxe uma alegoria que se insinua com um sentido cinematográfico: as personagens vagueiam pela casa, relacionam-se com ela; falam entre si, consigo próprias e dirigem-se a nós. Podemos senti-lo ao percorrermos os espaços, lendo os fragmentos de textos que surgem aqui e acolá, por vezes de forma clara, outras quase subliminar, como pequenos sulcos na madeira, ou pintura a preto sobre as paredes negras.
O fascínio pelas sombras das árvores projectadas sobre a casa levou ainda FF a propor uma espécie de figuração dessas sombras sobre partes da casa, tentando fixar esse movimento de sombras e luz. Mas não o fez da forma mais óbvia, sobre as paredes brancas, fê-lo sobre as negras conferindo ao plano-suporte uma inesperada profundidade.
SASSOEIROS
Os painéis negros de vidro do Centro de Controle de Tráfego, poderão induzir quem os vê a pensar que são fachadas normais em vidro. Mas um olhar mais próximo revela-nos que não são transparentes, porque na realidade são enormes painéis solares. E é aqui que começamos a descobrir a principal particularidade deste edifício.
Muitos edifícios High-Tech que conheço, não passam de exibicionismos tecnológicos fúteis. No extremo oposto encontram-se edifícios onde as parafernálias tecnológicas são dissimuladas a todo o custo.
Não é nada disso que encontramos aqui. É um exemplo de arquitectura sustentável, baseado num extensivo recurso a painéis solares que cobrem três lados e a cobertura. Aquilo que muitos arquitectos tentariam esconder (os painéis) são neste caso o principal elemento de composição. Aos painéis foram retirados os aros e sobre cada um fixou-se um vidro. O resultado é uma espécie de pele vítrea onde a tecnologia aparece de forma subtil e ambígua. É também uma couraça em "U" que protege o interior do edifício do intenso ruído da auto-estrada que passa em frente. O lado aberto do "U" está virado para o lado contrário, onde uma parede de pedra vulcânica permite a entrada no edifício através de uma única abertura. Atravessá-la é como passar através de um filtro acústico para um pátio, inesperado oásis onde vegetação inrrompe de um espelho de água. É o primeiro dos dois espaços mais significativos. Um pequeno mundo natural em alternativa ao mundo artificial que encontramos na cave.
Descemos à sala de operações, negra, onde os operadores, mergulhados na penumbra, observam uma tela gigante com imagens captadas em vários pontos das auto-estradas. Uma segunda tela em espiral, proposta pelo artista plástico Gilberto Reis, "embrulha" a sala com imagens de elementos naturais, distorcidos, de um mundo exterior a que não têm acesso.
Por momentos vêm-me à mente cenários clandestinos do 007, onde associações criminosas planeiam dominar o mundo.
ANTES
Em termos urbanos, Antes estrutura-se a partir de uma rua central rematada por um largo. A partir daqui, irradiam ruas e casario que se dissolvem rapidamente numa envolvente rural. Foi aqui que encontrei uma pequena casa, de uma ilusória simplicidade, capaz de derrubar um dos mais lamentáveis sofismas: a de que o trabalho do arquitecto só está ao alcance de classes sociais abastadas. Foi desenhada por José Paulo dos Santos e acabaria por ser construída apenas por um jovem pedreiro com o seu ajudante.
Fortes limitações económicas, uma rua sem referências, o lote estreito e comprido e os afastamentos impostos aos seus limites reduziriam a casa a um bloco alongado no centro do terreno. Reflecte também uma lógica de standardização e utilização de técnicas reconhecidas localmente.
Trabalhando a partir do arquétipo mais simples: volume de um piso com telhado de duas águas, a casa, é uma espécie de invólucro de barro vermelho constituido por pavimento e paredes em tijolo maciço e cobertura em telha de barro, que abraçam um interior de planos estucados. Nas fachadas, uma porta/janela-tipo é repetida 11 vezes.
O arquitecto dir-me-ía que reflectiu sobre o espaço doméstico moderno directamente ligado às tipologias primitivas. Compôs então uma síntese a partir do núcleo social alusivo ao embrião do abrigo primitivo, onde estava uma fogueira no chão que aquecia e servia para cozinhar os alimentos. Ao longo dos tempos, a esse núcleo central foram sendo acrescentados novos nichos, onde as pessoas viviam ou guardavam utensílios agrícolas, víveres e animais.
Esse processo, é aqui evocado numa lógica modular que se eextende a partir do espaço único que contém todos os espaços sociais. E o fogo: a lareira e o fogão.
O carácter compacto e serial, desta casa lembra-me investigações modernistas sobre o Existenzminimum. Resultante de uma abordagem modular, é ela própria um módulo habitacional-tipo, transportável para novos contextos, fabricável em série, com o qual o acesso à arquitectura qualificada é, tendencialmente, democratizado.
ALENQUER
A casa que os irmãos Aires Mateus desenharam para esta Vila a poucos quilômetros de Lisboa é um dos seus projectos iniciais da profunda reflexão que desenvolvem até hoje sobre conceitos abstractos da arquitectura. Uma reflexão radical e extraordinariamente coerente onde parece não haver espaço para concessões a hábitos e modos de vida enraizados na nossa cultura.
Aquilo que muitos abordariam como recuperação convencional de uma casa arruinada, foi transformado num exercício em torno dos conceitos de limite e tempo. A casa é também um jogo de reversos: cada face exterior torna-se muitas vezes face interior, e vice-versa. Por vezes é as duas coisas em simultâneo.
Havia uma ruína da qual foram preservadas apenas as suas grossas paredes que traçavam o limite da casa preexistente. Após pontuais acertos de geometria, resultava uma espécie de recinto dividido em duas metades. Numa delas implantaram a piscina (ou "tanque", espécie de designação puritana comum a muitos arquitectos portugueses). Na outra metade foi construído um novo elemento, que é um volume que corresponde à mínima matéria de delimitação dos módulos de espaço dos vários compartimentos. Dito por outras palavras: o volume-casa resulta da associação directa dos volumes-compartimentos. O espaço residual entre esse novo volume e os muros antigos, integralmente pavimentado com madeira, é a "revelação" deste projecto. É um espaço exterior habitável e polifacetado, simultaneamente tenso e tranquilo. Medeia dois tempos da vida da casa, presentes nos muros e naquele objecto.
Segundo Heiddeger, este é o espaço entre as formas . Espaço este que materializa o conceito investigado pelos arquitectos: um limite exterior da casa de espessura variável. Em termos geométricos e perceptivos.
CASA DAS MUDAS
Na praia da Calheta encontramos uma demonstração dramática do perímetro da Ilha da Madeira. No cume de uma falésia talhada a pique, a rugosidade natural do terreno parece subitamente ordenada. Será natural ou artificial? Terreno ou Arquitectura? Estamos perante a nova extenção da Casa da Cultura da Calheta, mais conhecida por Casa das Mudas, numa alusão à deficiência de antigas moradoras no edifício original.
O conceito que está na base deste projecto de Paulo David, é extraído de uma fusão entre arquitectura, paisagem, topografia e geologia. A ambição do arquitecto era redesenhar a massa montanhosa, onde o edifício assumiria o carácter de topografia, quase como se tratasse de um afloramento rochoso. Para conseguir esse efeito, o revestimento exterior da totalidade do novo edifício é em pedra natural desta Ilha, o basalto serrado
Os novos volumes encaixam-se no desnível do terreno e funcionam como plataforma sobre a qual poisa a casa preexistente. Sulcos na cobertura por onde inrrompe vegetação, confirmam a ambiguidade entre o carácter artificial da arquitectura e a expressão natural do terreno.
A primeira noção de interioridade, encontramo-la quando descemos aos espaços entre os vários blocos do edifício, onde passa a dominar o azul do céu, e, pontualmente, enfiamentos visuais dramáticos em direcção ao mar. No centro destes espaços abre-se um pátio mais amplo, onde a escultura de Botero parece assinalar o ponto de origem. Cada volume em redor corresponde a uma zona semi-autónoma, com entradas independentes: o módulo dos Serviços Educativos; a loja o módulo de exposições e o auditório.
Ao entrarmos no edifício, os percursos parecem propor uma descida às entranhas do montanha, ou em direcção ao mar e descobrimos um dos aspectos mais fortes desta arquitectura: a sua intensa pulsação interior. Sala após sala, uma nova configuração espacial compõe uma sequência de descoberta que surpreende a percepção do visitante. Não há salas iguais.
Por vezes no nosso percurso de contemplação, a obra de arte é substituida por uma impressionante vista sobre a envolvente.
PAVIA
O Alentejo, região do sul de Portugal onde se situa Pavia, é de uma beleza rara. Isso deve-se em boa medida topografia de extensas planícies ou colinas suaves pontuadas por sobreiros e oliveiras. Mas também à sua arquitectura popular ancestral, em que as casas são pequenos sólidos brancos que conferem à paisagem um carácter abstracto.
O fascínio por essa arquitectura leva muita gente a querer reproduzi-la. O resultado, carregado de equívocos, está à vista um pouco por todo o sul de Portugal onde é fácil encontrar caricaturas dessa beleza inimitável.
A casa de fins-de-semana desenhada por Pedro Mendes começou a partir desse mesmo desejo. Os proprietários queriam uma réplica de uma casa popular alentejana cuja fotografia haviam seleccionado num livro. Os argumentos do arquitecto de que fazer isso, nos tempos actuais, sem os materiais originais, não fazia sentido. O desejo dos proprietários manteve-se, e, sem a convicção do arquitecto, o projecto iniciou-se e chegou quase ao fim. Mas, ao longo desses meses os inúmeros diálogos sobre os fundamentos da arquitectura, a hipótese de reinterpretação filtrada desses modelos, tendo presente as tecnologias, o modo de vida e a cultura actual, levaram os proprietários a pedir um novo projecto. E tudo voltou ao início.
A casa que encontrei construída entre num bosque de sobreiros reflecte um olhar contemporâneo sobre o essencial daquela extraordinária arquitectura alentejana. Em primeiro lugar o seu sentido territorial: é um bloco branco alongado, na qual se entra através de um espaço exterior delimidado entre a casa e dois muros que lhe são paralelos. É uma reinterpretação da eira. Os carros param fora deste perímetro e não são visíveis a partir da casa. A casa orienta-se longitudinalmente no sentido norte-sul, abrindo todas as janelas para nascente e sul, fechando-se quase completamente para o sol impiedoso de poente. Desse lado, a porta de entrada é apenas um buraco num imenso plano branco. Os volumes da casa são desenhados numa procura de depuração que atinge uma expressão abstracta.
No interior que confirma o domínio rigoroso da incidência solar, o corredor dos quartos possui uma sequência de pequenos lanternins que introduzem uma luz suave e conferem ao espaço uma profundidade inesperada.
A sala comum abóbadada, coberta segundo técnicas tradicionais, é transformada num espaço invulgar por se tratar de um espaço tripartido em zona de inverno; zona de verão e zona de refeições.
AÇORES
Da minha visita aos auditórios do Campus Universitário de Ponta Delgada, consigo apenas recuperar memórias fragmentadas, dispersas, mas impressivas. Como num filme onde faltam alguns episódios intermédios, por vezes há momentos de um olhar semi-cerrado, onde retenho apenas o essencial.
Caminhando alameda acima, através de uma atmosfera romântica de arvoredo luxuriante, o olhar diagonal é travado por edifícios recentes, opacos e "baços", de duvidoso impacto territorial.
Mais adiante, contudo, o edifício que nos propunhamos visitar, era precisamente o contrário do que acabáramos de ver. Inês Lobo e Pedro Domingos desenharam um edifício com um forte sentido territorial. Sendo composto por espaços tendencialmente opacos (auditórios), é paradoxalmente um edifício permeável ao olhar, e, naquilo que é essencial, transparente.
Os arquitectos souberam avaliar o declive do terreno, mais pronunciado no sentido transversal, e encaixaram nele o grande auditório. Subimos para a sua cobertura-praça onde apenas sobressai um volume da caixa do palco. No lado oposto da praça, ergue-se um longo sólido transparente por onde se entra, e, que liga todas as partes do edifício: O grande auditório por baixo e os dois anfiteatros pequenos, que, como dois grandes tubos em pórtico, se elevam nos topos da praça permitindo que o olhar passe por baixo deles.
É um puzzle articulado com enorme precisão, onde se joga a permeabilidade ao olhar e a percepção do território se extende para lá dos limites do edifício.
Dois anos depois permanece nítida a memória desses volumes abstractos em branco, negro e vidro por detrás do qual se erguem árvores centenárias numa profundidade de campo visual aparentemente sem fim.
GAIA
O trabalho do atelier menos é mais , embora possua níveis de contacto com a cultura arquitectónica portuguesa, aborda campos de investigação que o identificam e diferenciam.
Um dos seus trabalhos, o bar do rio situado em Gaia, nas margens do rio Douro , consolida a imagem coerente que venho formando sobre o seu trabalho. Essa imagem começa a desenhar-se directamente a partir do statement implícito no nome desta dupla de arquitectos: o recurso, em cada projecto, apenas ao essencial, a um universo muito restrito de elementos de composição. Ensinou-me um amigo, que, na comunicação televisiva, cada frase deve conter apenas uma ideia. Percebi, ao longo dos programas que fiz, o valor estético intenso de uma frase simples, com um conteúdo preciso e de grande eficácia comunicacional. Penso que a Cristina e o Francisco procuram o equivalente em arquitectura, porventura, com mais sucesso do que eu no campo comunicacional na tv. Há neles um esforço recorrente de abstracção.
Outro aspecto sempre presente é a investigação de processos de construção em série, por vezes pesados ( pré-fabricados em betão), outras vezes muito ligeiros, com deliberadas ligações ao design industrial. (como neste caso),
Neste projecto visitam o universo da indústria metalomecânica associada à produção de carruagens dos comboios. São dois contentores-vagão articulados por um fole, estando os serviços no módulo pequeno, opaco, revestido a alumínio e a sala de utentes no módulo longo, em vidro fumado emoldurado a alumínio. Neste segundo, de dia, os intensos reflexos da envolvente urbana sobre este estranho objecto sublinham a sua sofisticação, e escondem quem espreita atrás dos vidros. Durante a noite irradia luz e expõe-se o interior. Aparentemente não há fronteira entre o dentro e o fora.
Sentado para jantar, sinto que a qualquer momento, o bar se movimentará em direcção a um outro local.
CORTEGAÇA
A longa experiencia de João Mendes Ribeiro na concepção de objectos efémeros, em particular de cenários para espectáculos de dança e teatro, é uma das suas facetas mais conhecidas. São geralmente cenários-objecto, transformáveis com a interacção de actores e bailarinos, que por vezes são reciclados de espectáculo para espectáculo. Esta experiência deixa uma marca indelével no seu trabalho quando a encomenda se refere a coisas de carácter permanente. Para mim, cada trabalho seu, possui sempre uma profunda reflexão entre o perene e o efémero. Quando visitei a pequena casa que desenhou em Cortegaça, isso estava lá.
Tratou-se de recuperar um palheiro em ruínas, adaptá-lo a casa de hóspedes e ligá-lo à casa principal – uma casa sem interesse, diga-se.
O projecto revela a habitual capacidade de observação do João, avaliando o que é estruturante, a natureza e valor compositivo dos sistemas construtivos desta antiga construção rural. Fez um levantamento rigorosíssimo do que existia e iniciou a composição retirando o que era supérfluo ou estava irrecuperável. E fez o que já lhe vi fazer noutros contextos: utilizou as técnicas tradicionais que encontrou, criando uma linguagem contemporânea. Produziu algo que retém o modo como viu o palheiro: acrescentos precários sob a forma de painéis de madeira que criavam a ilusão de não haver janelas e lhe conferiam um aspecto abstracto. Por outro lado interessou-se pela colisão entre a alvenaria de xisto e a ligeireza da madeira.
Desenhou uma nova fachada em ripado de madeira onde não são perceptíveis nem janelas nem porta de entrada. No entanto, ambas estão lá. A telha vermelha do telhado reconstruido, a madeira nova e o xisto antigo, justapostos, produzem um volume abstracto com uma subtil, mas intensa vibração de texturas e tempos diferentes.
No interior, uma sala de pé-direito duplo com mezzanine introduz uma referência a espaços mais urbanos, paradoxalmente coberta por um tecto onde são visíveis elementos de uma estrutura rural.
De dia, a paisagem em redor é percepcionada em tiras verticais através do ripado da fachada. Linhas diagonais de luz atravessam a sala. À noite, tudo se inverte.
ALCOBAÇA
A história do Mosteiro Cistercience de Alcobaça começa com a promessa do 1º rei de Portugal, D. Afonso Henriques, de que o construiria caso conquistasse Santarém aos Mouros.
Em 1153 iniciou-se a sua construção e séculos de transformações, e sucessivas realidades culturais, sociais e políticas, que estão plasmados na fachada principal, onde o gótico primitivo do pórtico da entrada se cruza com motivos renascentistas e barrocos.
No séc XX, a intensidade do tráfego e a visita da Rainha Isabel motivaram obras nos espaços urbanos envolventes de um pseudo-neo-barroco fora de época. A estrada nacional principal passava pela rua D. Pedro V (encostada ao edifício) que viria a ser absurdamente elevada, cortando ao meio portas e janelas. O mosteiro parecia refém do tráfego envolvente e de uma degradação que o separava da cidade.
Nos anos 90 que viría a ser encomendado a Gonçalo Byrne o projecto que vi agora construído. Juntar-se-ía a ele nessa tarefa João Pedro Falcão de Campos. Tiveram a sua habitual maturidade perceptiva e obstinada ética necessária para vencer fortes oposições locais de comerciantes que queriam os autocarros de turistas parados à porta.
Removeram o tráfego automóvel e rebaixaram de novo a rua D.Pedro V, recuperando as proporções do edifício e permitindo restabelecer de novo ligações cortadas com o interior do Mosteiro. A ideia é simples: aumentar a "purosidade" entre a cidade, e o mosteiro, para o revitalizar. Demoliram os arranjos barrocos em frente à fachada principal e reinventaram a ideia de terreiro, um espaço cívico, polifuncional onde manifestações cívicas e culturais podem acontecer espontaneamente. Traçaram no terreno uma série de linhas de pedra, que são na realidade caleiras de escoamento de águas, cruzando pavimentos de saibro castanho-vivo. Frente à ala sul decidiram plantar um pequeno bosque de carvalhos.
O fundamento desta concepção é simples e profunda: é recuperado o espírito e a austeridade da arquitectura cistercience. E é feito com as suas principais matérias-primas, para além da luz: com a água; a terra; a pedra e o arvoredo.
O intenso ruído automóvel que ali vi noutros tempos cedeu lugar ao som da água que corre, das folhas das árvores movidas pelo vento e dos sinos que tocam. O Mosteiro, aos poucos é devolvido à cidade.
(*) Por José Mateus para a revista World Architecture nº 188 |