"Uma arquitectura de pés (e polegadas)" in JA (Jornal dos Arquitectos) nº 198 / Set 2000
O conceito de América
Trabalhar em Nova Iorque não é exactamente representativo de uma genuína experiência americana. Nova Iorque é uma espécie de "sample" do mundo, do ponto de vista social , cultural e operativo. Empregadores, clientes e colegas são de nacionalidades distintas, constituindo um contexto comum, de estar em casa fora de casa.Mesmo o Peter Eisenmam costumava dizer "... a América começa ali..." apontando sobre o rio Hudson para Nova Jersey.
A primeira dificuldade do trabalhar fora do país é naturalmente o idioma. Essa dificuldade verifica-se também na língua inglesa, de que todos somos supostos ter o domínio. Falar e escrever a língua para uma utilização profissional requer uma aprendizagem específica complementar ao que se aprendeu no liceu, se leu em artigos dispersos ou se praticou no Verão.Fazer um telefonema pode ser um episódio inquietante, anotar um desenho construtivo uma dificuldade imensa.Nova Iorque é neste aspecto, talvez, o lugar ideal para trabalhar em inglês. Por se tratar de uma cidade que absorve constantemente gente de todo o mundo para uma permanência intensiva mas temporária é provavelmente o lugar do mundo em que mais se maltrata esta língua. Criam-se "dialectos" de pronuncias e distorsões, que, com frequência, se tornam apenas acessíveis aos conhecedores da língua natal (castelhano ou francês). Mesmo um nativo inglês, por exemplo constatado, pode necessitar de ajuda para pedir uma "sandes" de queijo ao empregado iemenita da "delicatessen" da esquina.
A escala
A mais significativa dificuldade de trabalhar nos Estados Unidos é para mim sem qualquer dúvida a unidade de medida, duodecimal: o pé (e a polegada). Esta aparentemente subtil diferença, desreferencia-nos por completo uma relação que não suspeitava tão enraizada da percepção das dimensões e das escalas. O instinto de saber logo que um desenho está à escala 1/200, ou de intuír se uma sala é grande num olhar para o desenho, desaparece para parte incerta. Os desenhos "distanciam-se" de nós e temos que voltar a abordá-los com régua e conversões. O metro não desiste, é e foi sempre, unidade, agora de comparação.
Os desenhos habituais são de escala um-oitavo-de-polegada ou um-quarto-de-polegada, por exemplo. Embora aproximadamente 1/100 e 1/50, do (nosso) sistema métrico, são suficientemente diferentes para a comparação encerrar um erro grosseiro. A calculadora também não tem qualquer utilização. Funciona em sistema decimal.
A economia e a cidade
Outra dificuldade, não menos importante pela subsistência, é o salário habitualmente pago aos arquitectos recém-formados que procuram emprego em Manhattan. Saídos de estudos igualmente demorados, presumivelmente difíceis e dispendiosos, um salário comum era em 1990 cerca de 20K (mil dólares/ano), enquanto um formado em Direito ganharia 60K e outro de MBA atingiria os 100K. Acrescia à diferença o facto de que as empresas que contratavam os dois últimos, habitualmente absorviam nas suas despesas corporativas os seus empréstimos financeiros estudantis. Estes encargos levarão aos arquitectos cerca de 20 anos a amortizar. Uma oferta salarial desta escala atira os jovens arquitectos para uma evidente menoridade socio-económica e para as orlas da ilha (Harlem ou East Village) ou mais habitualmente para fora de Manhattan, procurando habitação em Brooklin ou New Jersey.Esta marginalidade descola os arquitectos dos "yuppies" que sobem na cidade (upper-east e upper-west side), fundindo-os com artistas e galerias em "guettos" de importância seminal, como já foi em tempos idos o Soho e mais recentemente Tribeca ou East-Village.
A prática da arquitectura
Nova Iorque é porventura a cidade mais conservadora do mundo do ponto de vista da invenção arquitectónica. O último edifício de ruptura data de 59, o Guggenheim do Frank original. O mercado de trabalho é dominado por grandes empresas corporativas, habitualmente com mais de 100 arquitectos (SOM, HOK, KPF, IMPei, C.Pelli, e muitas outras), que absorvem a maioria das oportunidades de trabalho, produzindo em geral arquitecturas desinteressantes, de enfase vagamente funcional ou lucrativo.O trabalho mais "profundo" passa-se nos poucos e frágeis gabinetes pequenos, habitualmente à míngua. Estão normalmente associados à "inteligenzia" e à prática académica, muitas vezes por necessidade de subsistência. Aqui, qualquer pequena remodelação interior, sem impacto público, é publicada até à exaustão nos mais diversos tablóides que correm e moldam o mundo, disparatadamente ampliados por uma capacidade de difusão sem par, própria destes quadrantes geográficos. Curiosamente, para encontrar trabalho em qualquer gabinete era necessário saber escrever manualmente um lettering convencionado (verticais mais finas e horizontais ou curvas um pouco mais grossas). Todos os americanos o aprendiam, como parecia, à nascença. Era uma letra de aparente espontaneidade standart. Não se utilizavam os já esquecidos escantilhões com que por cá ocultávamos as nossas diferenças individuais.Presumo (sem conhecimento) que o computador, entretanto chegado, já tenha incorporado essa "fonte" manual. |