O Teatro Azul
Almada podia ser uma cidade extraordinária: espreita sobre as arribas da margem sul do Tejo, de onde alcança a mais extraordinária vista de Lisboa e “derrama-se“ pela colina sul com uma rara exposição ao sol. Tem um património industrial em dasactivação, que “escancara“ oportunidades para projectos de restruturação urbana, que o imobilismo e a falta de visão, sempre se encarregam de fechar. Afinal, Almada é uma paisagem provinciana, onde as mais medíocres arquitecturas assentaram armas e bagagens.Vibrei há um par de anos com o bocado de cidade fascinante que o atelier CONTeMPORÂNEA inventou para os terrenos dos estaleiros da Lisnave. Foi sol de pouca dura, que uma gaveta se encarregou de “arrumar“.Mas estes arquitectos – Manuel Graça Dias e Egas José Vieira – são obstinados e voltam à carga com um projecto finalmente construído: o Teatro Municipal de Almada. É uma nova referência na cidade que confirma a ética, o optimismo e a abertura mental desta dupla nos contextos mais adversos, que estes arquitectos olham com genuína complacência : “O Teatro é radicalmente diferente mas, ao mesmo tempo, vai buscar à envolvente pretextos para que esta não se "sinta mal". É como ter em casa uma pessoa que chegou um bocado mal vestida para jantar e nós não irmos logo a correr vestir um smoking para a envergonhar. Pormo-nos um bocado à maneira dele, para que se sinta à-vontade“.

Qual é a vossa percepção do contexto urbano em que se insere o Teatro?
MGD: É um terreno irregular, rodeado por uma série de traseiras nada qualificadas. A rua de chegada é um pouco suburbana, com os pisos térreos cheios de garagens. É um sítio sem interesse para o peão que passa por ali a fugir a caminho de outro lado qualquer. É tudo menos urbano ou amável.

Mesmo assim, identificaram no terreno algumas características motivadoras…
MGD: Encarámos este ponto de partida com algum optimismo e procurámos que o edifício se desenvolvesse à volta da geometria relativamente segura e de maior exactidão dos pontos principais do seu interior: o foyer, a sala principal e a caixa de palco, a sala de ensaios e a sala experimental; depois, que tudo o resto pudesse ser uma espécie de "enchimento" que configurasse e desse sentido às ruas envolventes, tirando partido das irregularidades. 
A nascente havia a vedação da Escola António da Costa, com uma fiada de árvores de algum porte ao longo de um passeio de peões. Tentámos tirar partido desse caminho, alinhando o edifício por ali e fizémos debruçar sobre esse lado o terraço do foyer e do bar e, mais acima, o do Café Concerto. Imaginamos noites de verão com as pessoas nas varandas, o cheiro e a presença das árvores. A sul existia uma rua em "boca de sino" e sem saída. Localizámos aí a caixa de palco para lhe minimizar o impacto, garantindo uma boa acessibilidade. Havia também necessidade de manter o acesso às garagens do lado poente; nesse sentido, criámos uma espécie de beco que dá a volta ao teatro e que funciona um pouco como nos filmes negros, quando os actores saem pelas traseiras, longe do público. A rua de cima é naturalmente adequada para entrada principal, porque se articula com o Fórum Romeu Correia; colocámos nessa frente situações que ajudassem a regenerá-la: a entrada do Teatro, uma livraria com uma enorme montra e um grande rasgo, de acesso ao Café Concerto, que poderá vir a ter um funcionamento autónomo de noite. Acreditam que este edifício pode transformar a falta de urbanidade desta rua.

Acham que a partir de agora esta rua pode melhorar?
EJV: Acreditamos que a rua, que era um sítio de passagem, venha a ser também um destino. O facto de estar lá este programa novo já ajudará a que isso aconteça.MGD: Daqui a uns anos talvez seja possível que algumas destas garagens dêem lugar a lojas, cafés, etc.. Imaginamos que possa haver gente a circular a pé, entre o Fórum Romeu Correia e o Teatro, no final ou no início dos espectáculos, ou, eventualmente, a vir jantar ao Café Concerto.

Não criaram um amplo espaço em frente do edifício que sublinhe o “ritual“ da chegada ou saída do Teatro. Porquê?
EJV: O edifício poderia ter "escorregado" para baixo e possuir mais espaço livre junto à entrada mas apostámos na manutenção do plano de fachadas existente, preservando a ideia de rua canal e tentando criar um equilíbrio entre os edifícios de habitação e o Teatro. O facto de as pessoas saírem directamente para a rua vai produzir uma maior animação. Seria contranatura criar uma praça, porque não teria o enquadramento apropriado. E há acontecimentos inesperados: os edifícios em frente, por terem muitas janelas e marquises e estarem virados a sul, projectam reflexos surpreendentes sobre a fachada do Teatro que é mais seca, mais simples; o efeito é muito interessante.
MGD: Gosto bastante das Portas de Stº Antão, com aquela densidade de gente que sai e entra do Coliseu, que circula entre as marisqueiras e as esplanadas. Por outro lado, estes subúrbios só se regeneram se forem densamente ocupados e compreendidos. Se conseguirmos criar um beco entre um edifício sem história e um novo, o resultado pode ser mais interessante do que criar praças que objectualizem esse mesmo edifício e criem distância, gerando posições mais arrogantes. Há ruas cheias de charme que, se analisadas, nos revelam edifícios sem grande interesse. É necessário é saber dar forma a essas ruas e acho que esse tipo de cuidados passou por ali. Ao fim do dia, quando a luz deixa de denunciar o desenho da fachada  do Teatro e o não desenho das outras, a rua ganha uma certa harmonia. Agrada-me andar por ali e parecer que os edifícios se posicionaram para estar de acordo com o Teatro e vice-versa. O Teatro é radicalmente diferente mas, ao mesmo tempo, vai buscar à envolvente pretextos para que esta não se "sinta mal". É como ter em casa uma pessoa que chegou um bocado mal vestida para jantar e nós não irmos logo a correr vestir um smoking para a envergonhar. Pormo-nos um bocado à maneira dele, para que se sinta à-vontade.

Como comparam esta solução com a da Casa da Música?
MGD: A Casa da Música teve que se debater com outro tipo de anonimato, o da Rotunda da Boavista, uma envolvente que não se fixa, que não serve de referência. Circula-se ao redor daquela massa de árvores e, à direita, há uma sequência de planos pouco interessantes de várias épocas e dificilmente sabemos onde virar. A Casa da Música teria sempre que funcionar como um ponto de referência e por isso acho a opção acertada. Se fizéssemos o mesmo tipo de intervenção neste contexto seria ridículo, provavelmente não contribuindo em nada para a melhoria da área.
 

Alguém poderia questionar: resultaria melhor uma arquitectura mais serena ou neutra face às contradições e ao caos envolvente?
EJV: Acho que o edifício tem uma certa serenidade. Todos os espaços principais estão calmamente encaixados uns nos outros e são depois as ligações entre eles a introduzir algum "frisson". Mas resulta também da relação forte que pretendemos criar entre o edifício e as geometrias ou as circunstâncias da envolvente, por vezes até da procura de uma certa privacidade para determinados espaços, como acontece com as pestanas que introduzimos no corpo de camarins.
MGD: Trabalhámos muito na caixa de palco para lhe reduzir o impacto e para que a sua volumetria não fosse ditada meramente a partir das necessidades internas. Aproveitámos o pretexto de ter que integrar um elevador para prolongarmos um dos cantos da caixa sublinhando a sua plasticidade. Há uma tentativa de descoberta de uma geometria, a partir de contingências exteriores e programáticas, que é aplicada depois também em três dimensões e que tem como objectivo criar uma peça elegante. O facto de o edifício não assumir uma posição de recusa da envolvente  e de procurar com ela escrever espaços urbanos modestos como as ruelas e os becos em vez de praças mais retóricas, expressa bem o nosso desejo de integração e de alguma serenidade.

E também o facto de ser monocromático, até já se chama Teatro Azul. Porquê essa opção?
EJV: Tínhamos a noção de que a forma articulada e complexa do Teatro deveria ser compensada com a aplicação de um revestimento único. Pareceu-nos que poderia ser a pequena pastilha de vidro, porque se adapta bastante bem às diversas morfologias e situações de remate, mas não tínhamos ainda escolhido a cor. Numa reunião com o Joaquim Benite, à volta de uma maqueta feita em Roofmate – material azul de isolamento, prático para maquetas rápidas –, surgiu a questão: "esta cor está muito bonita, o Teatro vai ser azul, não vai?" Não tínhamos pensado nisso mas olhámos um para o outro e concordámos, até porque a pastilha azul, por ser muito usada em piscinas, é também bastante barata.

O interior está baseado na existência de uma figura regular - o quadrado - que se repete em três situações com analogias dimensionais, no foyer, na caixa de palco, e na sala experimental. Depois acrescentam-lhe os espaços secundários e de ligação que introduzem a complexidade espacial que o Teatro tem. Com participou a Direcção do Teatro nessa concepção?
MGD: Com esta concepção tentámos responder às teorias do encenador Joaquim Benite, mais tarde sublinhadas por Jean Guy LeCat, que foi nosso consultor de técnica teatral, de que seria desejável uma estrutura com uma personalidade própria e não um edifício neutro, "polivalente" , aparentemente flexível mas que depois acabasse por não dar para nada. Foi-nos pedido um edifício com uma sala mais convencional, à italiana, e uma outra sala, experimental, eventualmente mais neutra, para receber outro tipo de espectáculos. Um edifício que pudesse ter muitas situações inesperadas, que fosse de tal modo labiríntico e complexo que ali se pudessem encenar coisas maravilhosas. Essa procura é bastante visível no pátio e nas galerias que o envolvem ou no modo como, do foyer, se irradia para quase todas as valências do conjunto.É um espaço intrigante aparentemente encenado. Pode ver-se para o pátio, mas também para o interior do outro lado, quem vê também acaba por ser observado.MGD: Era pedido no programa inicial "um pátio interior com uma árvore que possa crescer com o Teatro". Surgiu no sítio mais lógico: tínhamos a massa da sala principal, a sala experimental com uma certa autonomia, a sala das crianças e havia o desejo que pudessem todas estar ligadas e a funcionar em simultâneo. No meio destas ligações surgiu o pátio.O Joaquim Benite, que está sempre atento a todas as hipóteses ou sítios possíveis para criar um espectáculo, ficou fascinado quando começou a entender o espaço e se apercebeu que poderia ter público nas galerias, à roda do pátio, onde se poderá vir também a encenar qualquer coisa.EJV: Há também explicações "funcionais" para este espaço: a sala experimental só cabia naquela bolsa de terreno e como o programa previa que o acesso fosse comum às duas salas, para não se ter um longo corredor interior, criou-se uma galeria transparente. No piso de cima existe ainda uma outra ligação em rampa entre os camarins e a sala do café concerto. E há ainda no piso térreo o ATL, onde as crianças ficam enquanto os pais vêm o espectáculo. Para os miúdos poderem também descer ao pátio, tivemos que inserir uma escada. É do somatório destas coisas que resulta uma certa complexidade.
Na sala principal parte-se de uma tipologia tradicional italiana? MGD: Caracterizámos a sala de um modo contemporâneo, moderno, mas há qualquer coisa ali que, penso, fará as pessoas sentirem-se bem porque será familiar à tradição dos teatros. Não queríamos fazer uma sala muito esquisita e por isso há temas que são  normais nas salas de Teatro mas levados ligeiramente mais longe: é a cor, o ritmo dos pilares forrados a vermelho escuro que envolvem toda a sala e lhe dão um grande conforto, é o anfiteatro muito inclinado ou o tecto, que "embrulha" aquilo tudo. 
O termo contemporânea, que até é o nome do vosso atelier, está ligado ao fascínio que têm pelas várias formas de cultura urbana cujos registos vos interessa que estejam presentes na vossa arquitectura? MGD: É uma homenagem a Fernando Pessoa que teve uma revista - de curta duração  - chamada Contemporânea e é um nome que traduz a nossa vontade de nos mantermos ligados ao que ocorre à nossa volta, não nos fixando num único modo ou maneira de ver o mundo; tentando compreendê-lo, através da arquitectura. Tem a ver com a necessidade que sentimos de compreender a cidade e de a ler. De cada vez que for preciso actuar, tentaremos fazê-lo de modo a que o nosso trabalho mantenha as qualidades que encontrámos nos sítios, tentando, ainda, acrescentar-lhes  outras .
Duarte Cabral de Mello escreveu a propósito do vosso trabalho “Assumindo de forma inequívoca que qualquer acto de construção é uma alteração efectiva e afectiva do mundo, a arquitectura de MGD/EJV questiona e, no limite propõe, a anulação de fronteiras entre a cultura alta e cultura baixa. É um aspecto muito interessante da vossa obra que pode gerar mal-entendidos…EJV: Não é o vale tudo. É sobretudo a disponibilidade para os vários temas da arquitectura, sejam eles eruditos ou não. Não nos interessa tanto os autores mas mais os resultados, os fenómenos, a adequação, a justeza das opções para a resolução daqueles problemas. MGD: Temos um certo fascínio pelas milhares de coisas que acontecem nas cidades e por isso entendemos não poder estar fechados em "capítulos estéticos". Podemos gostar das coisas mais diversas, anónimas ou não. Pode até ser só um trecho, um pedaço, e esse pedaço vir a ser utilizado por nós noutro contexto, porque nos pareceu bem. Há um exemplo recente, no Museu  do Azeite que fizémos para Mirandela. O ponto de partida é uma antiga moagem, anónima, muito arruinada onde encontrámos uma série de motivações para a invenção. Por exemplo, o edifício confronta-se com uma série de vizinhos através de paredes com seteiras; gostámos imenso do modo como a luz entrava através das seteiras e isso levou-nos a explorar essa temática. Existia, por outro lado, uma escada interessantíssima que nos fascinou. Quisemos mantê-la. Depois, verificámos que não fazia sentido, do ponto de vista do circuito expositivo e virámo-la ao contrário; e lá está ela, copiada de uma escada anónima, construída por motivos mais ou menos práticos numa moagem, e agora refeita, face às necessidades do novo Museu. Conseguimos imprimir-lhe significado mantendo toda a anterior plasticidade. O (Louis) Khan – arquitecto - referia, "o que as coisas querem ser", o que nos leva a pensar: isto com mais um "pouco" pode ficar fantástico, vamos lá dar-lhe o bocadinho necessário para o re-significar, para que passe a ser olhado com outros olhos! 
Na vossa trajectória têm trabalhado com promotores imobiliários, e tanto quanto sei, poucos são os que trabalham com bons arquitectos. Tem sido positivo?EJV: Trabalhar directamente com os promotores pode ser bastante interessante porque temos que nos adaptar a uma certa maneira de ver e fazer arquitectura e chegar ao que é realmente importante nesses trabalhos. Se conseguirmos fazer alguma coisa que traga mais-valias para o sítio onde se localiza, com alguma lógica interior, a partir de esquemas perceptíveis e fáceis de construir, isso já é estimulante. Pode-se conseguir fazer com que eventualmente aqueles edifícios no contexto urbano façam sentido e dêem pistas para outros promotores tentarem fazer também alguma coisa um pouco mais interessante. Cassiano Branco fez isso em Lisboa e muitos outros, que por vezes nem eram arquitectos, repetiram e, consequentemente, seguiram, também, algumas das suas preocupações com a cidade. 
O projecto do Salgueiral, em Guimarães, é um desses casos?EJV: É um promotor imobiliário culto que compreendeu as potencialidades de chamar arquitectos para resolver os problemas. O objectivo dele não deixa de ser, como o dos outros, comercial, mas é uma pessoa bastante mais esclarecida e interessada. Comprou um loteamento já com uma solução, decidiu pô-la em causa e convidou cinco arquitectos para um concurso - que ganhámos -, onde obteve respostas diferentes da banalidade corrente. MGD: São oportunidades interessantes de lidar com uma construção relativamente tradicional: aceitamos as regras desse jogo, mas usamos esses pretextos como pontos para ancorar algumas mudanças na cidade. Mudanças que não são de vocabulário, pois não é com grandes "habilidades" formais que se muda a cidade. Um edifício de habitação com os seus 15 metros de profundidade e toda a legislação que condiciona o desenho dos fogos não deixa muito espaço para "invenções". Tentaremos antes que aquele edifício, com aquela forma, imagem, textura, o seu assentamento no chão, eventual elegância etc., possa ajudar a regenerar aquele bocado da cidade, dar-lhe sentidos que estariam lá, mas escondidos, e criar um lugar onde as pessoas possam circular nas ruas com prazer e os miúdos ter os seus espaços para brincar, etc. Mais do que o vocabulário do edifício isolado, o importante é o vocabulário da cidade.O vosso trabalho reflecte sempre um certo inconformismo e pouco interesse em alinhar com modas…MGD: Procuramos fazer arquitectura com alegria. A vida é curta e gostamos muito de aproveitar os vários pretextos para experimentar. Claro que os clientes têm que ser respeitados e que gostar das obras, mas trata-se sempre de tentar levar as coisas um pouco mais longe, sem necessariamente gastar mais dinheiro com isso. Cada projecto é uma aventura própria que em princípio não faria sentido noutra parte do país ou do mundo. O Teatro é um bom exemplo. EJV: Vários intervenientes na obra diziam que o Teatro era muito bonito mas que era pena estar naquele sítio. A realidade é que ele resulta daquele preciso contexto e se estivéssemos a desenhar num descampado, nenhuma daquelas formas nos ocorreria.
Não se encontra alguém em Portugal com uma actividade tão extensa de divulgação da arquitectura como o MGD. Inclui televisão, rádio, jornais, conferências, direcção de revistas, livros…MGD: São registos diferentes onde tenho procurado sempre uma certa eficácia. É um pouco como os projectos de arquitectura, quando se procura adequar a resposta ao tipo de problema colocado. Uma coisa é escrever um texto para ser lido no Jornal dos Arquitectos, outra é escrever um texto para um público mais alargado. Recentemente, tenho escrito para o Expresso textos em que tento fazer um balanço ligado aos grandes mitos que atravessam as cidades contemporâneas. É uma escrita resumida, para ser lida pelo grande público na qual procuro uma certa eficácia comunicacional e, como na arquitectura, que tenha alguma "expressão", para que as pessoas não desistam ao segundo parágrafo. Escolho uma ideia sobre a qual gostava que se pudesse reflectir e tento construir o texto de modo a que seja lido até ao fim, concorde-se ou não com ele, mas que seja lido. É uma actividade que vou fazendo espaçadamente porque prefiro ser arquitecto e ainda que goste imenso do ensino e da divulgação, não é essa a minha área principal. 
Podendo subsistir da actividade de projectos, o que vos motiva a dar aulas?EJV: Gosto imenso de dar aulas de desenho. Sempre gostei muito de desenhar e nesta passagem pelo ensino gosto de desmontar os complexos que alguns estudantes têm, de que não seriam dotados para desenhar. É necessário desmontar ideias feitas sobre o desenho e a arquitectura, num sentido mais amplo: nas telenovelas os arquitectos são artistas com uma profissão "giríssima", são bestiais, têm rasgos geniais e trabalham pouco. Toda a gente pode desenhar porque se aprende, treina-se, mas é preciso desenhar muito, gostar de representar o mundo, ser-se uma pessoa interessada, olhar e ter a capacidade de perceber o que se está a fazer. Não há uma maneira de desenhar; cada um terá de encontrar a sua expressão própria. Muitos alunos hoje vão para arquitectura porque está na moda, e, contrariamente ao que era normal num passado recente, vêm de famílias sem um enquadramento cultural e económico que lhes permita chegar ao ensino superior com uma preparação mais sólida. Temos que lhes abrir os horizontes e quando o conseguimos fazer, torna-se muito motivador. MGD: O que é simultaneamente fascinante e extraordinariamente difícil é que, ao ensinamos arquitectura, pressupomos que o aluno vá aprendendo através da prática. É difícil porque temos que estar constantemente a explicar o que se pretende sem que o modo de lá chegar seja forçosamente mecânico; colocar todos aqueles ensinamentos em linha não assegura uma boa resposta. O olhar experiente do professor que acompanha os alunos  poderá ajudar a ler as virtualidades dos trabalhos, dizer, "este objecto que lançaste, tem potencialidades de responder ao pedido mas tem estas e estas lacunas". Terá que ser, também, uma defesa intransigente de que o aluno seja o mais "autêntico" possível e que se descubra a si próprio no acto de fazer o projecto  Tem que ver com um processo de limpeza de uma certa ideia de vocabulário, ligado às modas, porque os alunos vão tendo a cabeça poluída com muita informação. Ensinar é difícil porque a maior parte dos alunos terá tendência a copiar determinadas situações mais estabilizadas e, a partir daí, imaginar que já tem a sua arquitectura mais ou menos "pronta". O Paulo Mendes da Rocha diz que a arquitectura "é também um sistema de conhecimento do universo" e eu acredito nisto. No entanto, este é apenas um dos processos possíveis.
Há quem prefira a transmissão de modelos…MGD. Há quem defenda que, ainda que se pretenda educar cidadãos livres, que venham a dar o melhor de si, o melhor processo seria adestrá-los na cópia durante uma série de anos até que entendessem verdadeiramente a essência da arquitectura para, depois, já na posse desses modelos, conseguirem finalmente ser eles próprios. Não tenho a certeza de qual dos processos seja o mais eficaz, mas é sempre muito estimulante ver os alunos chegarem sozinhos a pontos que consideraríamos, no início, insuspeitos ou impossíveis. É um processo difícil mas pode garantir-nos, também, um prazer enorme.E saber que se teve um papel nesse crescimento.MGD: Claro, embora tudo isso nos escape, as pessoas crescem e autonomizam-se face ao mundo e à compreensão que vão tendo do mundo através de mil e um factores. A Escola deve abrir as cabeças e dispô-las às diferentes coisas, às experiências, a uma certa disponibilidade para olhar e ver maravilhas sob várias formas, sem preconceitos. Os alunos não podem estar constantemente a reproduzir os mesmos modelos, têm que ser novos arquitectos que venham a trazer contributos novos para o crescimento do conhecimento geral.

(*) Escrito por José Mateus para a revista Linha 4