Outras Harmonias
Há meses atrás, quando acompanhei Andrej Hrausky, o curador da exposição eslovena, numa visita ao Pavilhão de Portugal, falei-lhe da nossa intenção de encomendar esta obra ao Mário Laginha. O Andrej olhou sorridente para a cobertura suspensa do edifício de Álvaro Siza, e disse, provavelmente tendo em mente a alusão de Goethe à relação entre estas duas disciplinas, ele apenas tem que “descongelar“ a arquitectura.Em Portugal, onde este território parece ser ainda pouco explorado, já assisti a incursões de músicos como Emanuel Nunes, ou de os Miso Ensemble. Mário Laginha é um músico com formação e produção bastante diferentes, com o qual discuti episodicamente as inúmeras ligações entre as duas artes, desde os aspectos metodológicos, às frequentes analogias conceptuais. Por estas razões, e pela sua transcendente capacidade ramificadora, como uma árvore que assenta raízes em diferentes solos, decidimos convidá-lo a compor uma obra exploratória deste tema, para ser tocada na 1ª Trienal de Arquitectura de Lisboa 2007.

Um dia fizemos as malas e encetámos um fim-de-semana de viagem “cronológica“ através de algumas obras seminais da arquitectura portuguesa. Começámos pelo Mosteiro de Alcobaça, passámos pela igreja do Marco de Canaveses de Álvaro Siza e terminámos no Burgo de Eduardo Souto Moura. Entre estas e outras visitas, enquanto eu tentava isolar os conceitos compositivos de cada edifício, o Mário procurava equivalências no campo musical. 
Há aspectos comuns que podemos descrever racionalmente, como a estrutura rítmica, as pausas, os padrões, as variações, a profundidade, ou a espacialidade. Outros não são tão óbvios, como o poder de uma música nos remeter para determinados géneros de arquitectura, tipos de espaços ou certas “atmosferas“. Porque é que uma música nos remete para uma catedral, quando outra nos transporta para a beira de um riacho, ou outra ainda para a mais movimentada e cosmopolita avenida de uma cidade?

No momento em que escrevo, ainda não escutei um único acorde da obra encomendada. Mas vou reconhecendo, no brilho dos olhos do Mário, o seu entusiasmo por algo que aos poucos ganha contornos, para o que contribuem também os companheiros que elegeu, o percussionista Alexandre Frazão e o contrabaixista Bernardo Moreira. Através de território tão fascinante quão difícil de abordar, estou absolutamente seguro que, com a aparente facilidade dos bafejados pela “sorte“ da genialidade, vão conferir à Trienal um dos seus pontos mais cintilantes.
Numa conferência pública recente, o Mário referiu a enorme importância – e dificuldade – de escolher o modo como uma música termina. Curiosamente, esse é também um dos momentos mais difíceis em arquitectura. Como o Mário bem sabe, tal como num concerto em que acrescenta uma variação sobre uma música, na composição de uma casa podemos sempre ir mais longe. No entanto, os prazos ou a convicção de um momento obrigam-nos a levar a nossa obra ao estado sólido, a “congelar“ a nossa composição, a assumir que “ela é assim“. 
No final dessa conferência, aproximei-me do Mário e dei-lhe os parabéns pela óptima palestra que acabara de dar sobre arquitectura.


(*) Escrito por José Mateus para a capa do disco “Espaço“, de Mário Laginha.