TSF 13 Dez 05
Num depoimento para o programa Tempo & Traço da Sic-Notícias, Pedro Strecht colocou uma questão importantíssima: a relação entre qualidade arquitectónica e o desenvolvimento emocional das crianças.

O conhecido pedopsiquiatra, centrou o discurso na arquitectura das escolas, muitas vezes feia e inadequada:

Tomando o exemplo de crianças que vivem em bairros degradados, está provado que esses meios hostis potenciam a agressividade e a delinquência.
Se essas crianças estudarem numa escola com má arquitectura, desconfortável, e portanto, igualmente hostil, a tendência será para desenvolverem os mesmos comportamentos anómalos.

Por outro lado, se for um lugar com boa qualidade arquitectónica, compensa os estímulos negativos do meio em que vivem. As crianças sentem que houve um investimento nelas, será um ambiente favorável a que criem um sentimento de pertença à escola. Em condições normais essas crianças desenvolverão uma maior ligação à escola e às suas actividades.

Isto ilustra o extraordinário poder da arquitectura na modelação de comportamentos. Neste caso particular, relacionados com o sucesso escolar, esse terrível flagelo que assola a sociedade portuguesa.

Quando estendido ao desenho das cidades, este raciocínio passa a englobar toda a população. Para além dos valores estéticos e patrimoniais intrínsecos, a boa arquitectura tem a capacidade de potenciar comportamentos positivos.
Mas em Portugal há um paradoxo: temos muito bons arquitectos, alguns entre os melhores do mundo, mas a expressão do seu trabalho no país é meramente residual e abunda a mediocridade.


São razões mais do que suficientes para justificar que a arquitectura devia ser encarada com outra seriedade por políticos e decisores. Infelizmente, na maior parte dos casos o que se observa, é uma enorme displicência.

A começar pela nossa própria legislação, que ainda possui traços terceiro-mundistas que já não existem nos países ocidentais, como um dec-lei de 1973 que permite que gente sem a formação superior de arquitectura desenhe… arquitectura. É precisamente a mesma coisa que permitir a um veterinário que opere uma pessoa. Com uma importante diferença: neste caso o dano seria privado; e no caso da arquitectura o dano é sempre colectivo. Basta vermos o que se passa nas nossas cidades.


(*) Intervenção de José Mateus no programa “Na Ordem do Dia“