O Canto da Sereia

Uma após uma, as 100 fotografias de Leonardo Finotti passam-me pelas mãos e devolvem-me uma série de memórias de visitas feitas, ao longo dos anos, a alguns daqueles edifícios. Entre  a impressão forte que me causaram, fixei o olhar inquietante deste fotógrafo sobre o Palácio da Alvorada em Brasília. Estamos perante a insignificância da criação Humana, face à esmagadora beleza da natureza? Ou, trata-se de registar a possibilidade de uma arquitectura assumidamente artificial, construir com o mundo natural, um quadro de um insuperável equilíbrio. Ou, terá Finotti preferido revelar a eloquente capacidade de Niemeyer, para compor, um solene, adequado, mas dramático, percurso de aproximação ao palácio presidencial?

Paradoxalmente, um dos grandes problemas que as obras de Niemeyer colocam ao fotógrafo, é o seu carácter eloquente, o forte apelo sensorial, o seu carácter “fotogénico“. A sua grande expressividade, produzida por linhas desenhadas com o enorme talento de quem sabe extrair da matéria, do sol, de uma mata ou avenida, os elementos necessários para produzir um efeito sempre sedutor. Poderia pensar-se que fotografar Niemeyer é fácil, mas não é. É como “medir forças“ com a atracção irresistível do “canto da sereia“. No seu olhar sobre o Palácio da Alvorada, ao não ceder incondicionalmente à sua extraordinária beleza, o fotógrafo escapa ao deslumbramento óbvio e revela-nos uma outra percepção da obra.

Os edifícios de Niemeyer são quase invariavelmente gestos largos, fluidos, que, mesmo nos casos de menor escala, parecem reivindicar para si um amplo espaço, reflexo espontâneo de um autor que nasce e vive num país de proporções tão vastas, de um território imenso, onde os limites estão para lá da linha do horizonte. O Brasil. Talvez por isso, as obras deste arquitecto parecem desenhadas para uma visão distante. A um certo nível  impõem, não dispensam, esse olhar. Nesta exposição, são disso prova o Palácio da Alvorada, o Copan em S. Paulo, ou a sede da ONU em Nova Yorque, registos impressionantes que nos dilatam o olhar.
A objectiva de Finotti haveria ainda de se deter em enquadramentos parciais que captam o virtuosismo sensual de Niemeyer, na composição de odes espaciais, evidenciados nos registos do Palácio do Itamaraty de Brasília e do Auditório de Ibirapuera em S. Paulo, ou, de fusão com a natureza, como na Casa de Canoas no Rio de Janeiro. E, inevitavelmente, no edifício do Jornal O Cruzeiro e na Igreja S. Daniel na favela Manguinhos, ambos no Rio de Janeiro, emergem, sem filtros, os contrastes brutais de uma dura realidade social brasileira.

Cem fotos, cem obras, cem anos, trata-se, antes de mais, de uma longa viagem do fotógrafo, seguindo e revelando, através do seu olhar, sem artifícios, os passos, as visões, as obras de uma longa e intensa vida devotada à arquitectura. Através dela, constrói uma expressiva sequência de olhares pessoais, e suscita-nos interrogações sobre a extensa e notável obra de Niemeyer. No final, sentimos, inevitavelmente, o irresistível apelo dessa viagem.


José Mateus, 17/01/2008 (Escrito para a exposição “Cem fotos, cem obras, cem anos“)