Da Inclusão da Cidade Anónima

Texto de Manuel Graça Dias

A cidade faz-se de oportunidades, e o papel dos arquitectos deverá ser, a cada momento, o de descobrir e potenciar, na maior ou menor riqueza dos tecidos urbanos, as capacidades escondidas, as hipóteses de regeneração e melhoria ou, pelo menos, as lentas aberturas possíveis e as alterações a propósito dos vários programas a que vão sendo chamados a atribuir sentido.
O Porto, para os lados de Paranhos, é ainda uma cidade que oscila entre um loteamento proto-industrial, de largos  segmentados em lotes magros e compridos com casas baixas ou troços de <>, e uma modernização especulativa, começada nos anos 60 do século passado, semeando as ruas de pequenos edifícios de quatro e cinco pisos (desses edifícios marcados pelas vigas de bordadura que riscam, forradas a pastilhas cerâmicas ou pintadas de castanho as fachadas, separando os diversos andares, que encaixam depois, com os lados enviesados, no interior de de minúsculas varandas). São volumes anónimos que aparecem intermitentes, com as empenas forradas a fibrocimento, porque não sabiam quanto tempo demorariam os terrenos aos lados a converter-se ao então florescente negócio dos T2 e T1.
Numa rua dessas, cheia de carros parados -a Rua de Bolama, em frente ao Parque do Covelo, o que garante uns restos de muro de quinta ao longo do passeio e uma promessa de árvores por trás -,Nuno Mateus e José Mateus (NM + JM) desenharam, recentemente, na sequência de um concurso público, o Centro Regional de Sangue do Porto.

O tema do trabalho aparece muito bem sintetizado numa pequena frase dos autores: <>.
<> porque, apesar de o terreno disponibilizado ter frente para a Rua de Bolama (e também para uma perpendicular, a Rua Visconde de Setúbal), o grosso da sua área abre-se dentro do quarteirão, definido por uma série de muros e limites (os II lados), outras tantas direcções e vizinhanças, miolo que os arquitectos ocuparam com  uma construção longa e magra que, quase como uma fita, se dobra, se achata, retorce, sobe, desce, vira e aterra, ligando as duas ruas e abrindo o interior do quarteirão a uma travessia intrigante e útil.
<> porque um <> é um equipamento laboratorial cuja função principal seria a recolha de sangue (a partir de dadores) e respectiva análise, posterior partição nos seus vários componentes (eritrócitos, plasma e plaquetas), armazenamento (quarentena) e, finalmente, um segundo período de análises, antes da distribuição dos materiais assim obtidos.
<> porque a tipologia funcional destes centros é ainda recente e relativamente pouco testada, não se conhecendo com rigor todas as necessidades espaciais para o estabelecimento dos diversos passos; por outro lado, os avanços científicos e tecnológicos obrigam a que o próprio organigrama de funções vá sofrendo adaptações e < >, no sentido de acompanhar as constantes alterações propostas pela ciência.

Programas assim, muito volúveis ou específicos, são inimigos da arquitectura – ou, melhor dizendo, a (boa) arquitectura não se deverá deixar impressionar por eles, sob risco de, passado algum tempo, o espaço não servir nem para o programado (porque, entretanto, essa necessidade poderá já ter <>) nem para mais nada, por estar demasiado comprometido com particularidades e circunstâncias pouco <>.
{É de referir sempre o exemplo da sala para a qual se requeria um grande cuidado acústico, destinada a alojar irritantes impressoras de agulhas, que, quando finalmente foi executada, três ou quatro anos mais tarde, já se mostrava inútil, as impressoras, então, silenciosas e confortáveis, ultrapassada a necessidade de serem expulsas dos ambientes de trabalho; ou o do enorme <>, rasgado na parede do 1º andar de uma Faculdade, que auxiliaria as cargas e descargas de …. computadores, que hoje lá jaz, inútil e absurdo, a boiar a meio do edifício, alunos e professores subindo a escada de entrada com <> debaixo do braço ou em pastas}.
NM + JM não se intimidaram. Tomaram o desafio da inconstância programática do Centro como um ponto de partida para a invenção de uma série de sistemas que pudessem garantir muitas vidas diferentes, mais ao edifício do que à função que hoje, episodicamente albergará. Um sistema de fachada, por exemplo, que <> todo o exterior, libertando o espaço para que ele possa crescer, diminuir, duplicar-se ou extinguir-se com auxílio de divisórias leves, sem o compromisso da rigidez de padrões de janela muito definidos ou marcados. {O sistema de iluminação interior, aliás, é não só flexível como muito eficaz, no recortar e <> a mediocridade da envolvente, enquadrada a um nível relativamente baixo e improvável, o resto da luz do compartimento recebido através de uns módulos de vidro foscado que preenchem os parametros, à altura dos olhos de um observador de pé.}

Os ritmos propostos por esses módulos industriais, a sua verticalidade de brilhantes e esverdeadas, pousadas sobre as neutras janelas que correm em baixo, é contrariada pelo riscado fortemente horizontal de chapas de aço galvanizado que, como <> de auto-estrada sobrepostos, marcam e definem a restante volumetria. Um fenómeno químico, a <>, varia de texturas visuais diferentes os segmentos de chapa igual, e então as <> amalucadas que percorrem o meio do vazio dos logradouros ganham grande coerência e consistência, escrevendo um discurso que já só parece escultórico no seu movimento hesitante, mas que nenhum tique de vocabulário vem perturbar, antes a continuidade da regra que baliza a versatilidade do interior servindo, em simultâneo, para entendermos o todo, no seu nervoso percurso que espinha dentro o quarteirão.
E, como já em Ílhavo, no Museu do Mar e da Ria, dos mesmos autores o quarteirão é agora atravessado quer pelo construído quer pelos utentes do Centro e pelo dia-a-dia de trabalho da própria instituição. Organismo vivo, ele próprio solidificando um percurso, uma sequência, mas aberto a outros usos, se amanhã se vier a descobrir que o que se espera são outras valências, outros procedimentos, outras maneiras de o ocupar. Modo certeiro de enfrentar (e aceitar) a cidade difusa que nos cerca, modos hábeis que a investem de significado para, depois, a poder incluir.

Ver: Centro Regional de Sangue do Porto