Uma Natureza Própria
Texto de Pedro Jordão + Rui Mendes
ARX ou ARchiteXture. Arquitectura, Texto, Textura. A génese dos ARX Portugal está nestas palavras, no que representam. Uma arquitectura de investigação, de experimentações. Uma arquitectura com personalidade, que questiona e arrisca respostas. Em gestos que, longe se serem automáticos, se regem por princípios e preocupações permanentes.
Nuno e José Mateus são já nomes incontornáveis da arquitectura portuguesa. Têm ainda o valor acrescido de terem conquistado um espaço muito próprio, de terem introduzido no panorama nacional uma nova forma de ver/fazer arquitectura.
Em 1990, fundam o ARX Portugal, na sala de um apartamento de Lisboa. Mas esse é o segundo capítulo. Há uma primeira parte em que Nuno Mateus, na altura a trabalhar no atelier de Peter Eisenman em Nova Iorque, funda o ARX, juntamente com outros arquitectos de diversas nacionalidades, no que começa por ser uma estrutura internacional, com ramificações em Nova Iorque, Berlim, Kobe e Lisboa. Actualmente, a relação dos ARX Portugal com a estrutura internacional é muito ténue. De resto, o ARX sempre foi, na sua essência, um projecto da parceria portuguesa. Mantêm-se, no entanto, os princípios.
Architexture ou a não hierarquização do território, a perfeita equivalência entre cada elemento. Ou a corporização de um pensamento complexo, fruto de múltiplas questões. Também (sempre) uma eterna insatisfação. O seu objectivo é explorar uma natureza própria, procurando identificar estratégias de desenho que consigam ser específicas de cada projecto. Cada projecto tem a sua essência muito particular, a sua história, as suas vontades. A sistematização está nas questões e não nas respostas.
Tal não significa que cada projecto seja um acto isolado. As experiências anteriores são tomadas como suporte para novas investigações. Possibilitam novas exigências em futuras obras. Dão-nos pistas necessárias para a análise dessa natureza. A especificidade de um projecto é justificada pelas diferentes questões levantadas pelo programa, pelo contexto, pelo cliente, pelas referências importadas. Essa estratégia parece estar para além da esfera da linguagem e das formas. Está acima de tudo num desenho imerso em intenções. Por detrás das aparências plásticas – associadas por alguns ao Desconstrutivismo – existe a ideia de um espaço dinâmico, de referências inter-disciplinares, de um método muito particular.
Começaram à distância, estando José Mateus em Lisboa, quando desenvolveram o projecto da casa de Melides para os seus pais, um monolito partido em peças que deslizam entre si e se rebatem. A troca de informação fazia-se através de fax, cartas, fotocópias, desenhos e maquetes, explorando os vários meios de comunicação disponíveis. O projecto é elaborado como se de uma laranja se tratasse – Nuno Mateus trabalha a forma da laranja, isto é, estuda as formas, as vibrações, o significado formal, enquanto que José a descasca, ou seja, testa o programa, analisa o significado dos espaços, trabalha o desenho, o layout.
O projecto de Berlim, com Daniel Libeskind é outra experiência modeladora. À rigorosa disciplina herdada por Nuno Mateus do seu trabalho com Peter Eisenman, acrescenta-se agora um sentido de absoluta liberdade, de sonho e utopia. De ambos, retiram um forte simbolismo presente na metodologia de projecto. O uso de referências aparentemente arbitrárias. Linhas imaginárias, malhas, analogias.
Na arquitectura ARX, a crítica não se traduz numa resolução injustificada, gratuita. Busca possibilidades no vasto campo de acção da arbitrariedade. Um tradicionalista diria que a importação de uma referência, como as malhas utilizadas no projecto para Berlim, nomeadamente a malha do poder, é arbitrária, não tem razão aparente de existir. Esta opinião só parece possível por não encontrar no elemento poder uma justificação para o desenho urbano daí decorrente. A arbitrariedade olha atenta para todos os valores do mundo. Despe-os do seu vestuário, formado pelas opiniões e conceitos aprisionados no passado. Só a memória os conhece. Há uma hierarquia que é posta em causa. O que interessa é saber que num determinado momento x é prioritário a y.
Existem diversos projectos, como o Pavilhão de Portugal na Expo 92, em Sevilha, a Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Bragança ou os Laboratórios do Polo de Mitra da Universidade de Évora, em que essa carga simbólica é demasiado evidente. O projecto para a Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa é outro caso paradigmático. À falta de referências no local, criaram o seu próprio contexto. Fundiram a ideia de motricidade, a partir do uso de cronofotografias, à ideia de um novo mapa de Lisboa, simbólico, ligando pontos diferentes de imaginários comuns – Poder, Mito, Morte, Fogo, Água, História, Corpo, Memória, Natureza e Dinheiro. Desenhado, este novo território torna-se real. O projecto parte daqui. De resto, a sua relação com o lugar parte sempre de um esforço de o reestruturar, através da importação de referências várias.
Há também um processo de projecto claro. A estratégia de desenho aparece quando trabalham a percepção, o estímulo no movimento ou a malha e o diagrama, assim como o objecto, elemento importado, ou ainda uma forma no espaço, sempre fragmentada, tanto pelo deslize como pelo fractura, sempre estudando tensões, procurando-as principalmente na dicotomia estabilidade/instabilidade. Procuram ainda incluir no processo, o mais cedo e rigorosamente possível, a parte construtiva.
E há ainda a maquete, a primeira construção, a primeira resistência ao tempo, abranda-o. É o elemento que mais facilmente dissipa dúvidas. Por isso a sua presença constante, a sua produção incessante, do início ao fim. Começam com maquetes mais abstractas, embrionárias, onde estudam a vibração de uma massa que ainda não é volume definido. Noutra fase, recorrem à construção de sucessivas maquetes para extraírem uma síntese da ideia formal. Por fim, as de carácter mais construtivo, deixando o carácter formal para se aproximarem do real. É a fase da total definição. Por vezes, ainda, uma maquete final, para comunicar.
O Museu Marítimo de Ílhavo, permanece, para já, como a mais significativa obra dos ARX, por ser a mais conseguida e representativa. É um edifício de uma beleza óbvia, virado para dentro, não sem antes reestruturar o lugar onde se insere. O espelho de água do pátio, o elemento mais íntimo, faz a ligação entre os volumes justapostos, destacando-se a sala das exposições temporárias, um volume autónomo que parece flutuar.
Entre as suas principais obras construídas encontram-se, ainda, o projecto expositivo para o Pavilhão do Conhecimento dos Mares, na Expo 98, a Central Digital de Porto Salvo e as casas Rosa, Grândola e Romeirão. Esta última, em construção, é um belíssimo exemplo de fusão entre construção e paisagem, parecendo romper do solo, debruçando-se sobre o horizonte.
Neste momento trabalham em diversos projectos, dos quais se destacam a Biblioteca Municipal de Ílhavo (a partir de um antigo solar), a Escola Superior de Tecnologia do Barreiro (um edifício composto de diversos blocos autónomos ligados por uma circulação central), e os Centros Regionais de Sangue de Coimbra e do Porto (em que uma barra estrutura todo o projecto em sucessivas dobras que percorrem todo o terreno).
Os ARX têm o valor próprio de quem experimenta. De quem não se acomoda a convenções. Antes procuram libertar-se do que parece ser já um dado adquirido. Tentam ir para além do espaço cartesiano, buscam novas materialidades. Criam novas condicionantes ao projecto, não hesitam em sonhar de novo o que lhes é imposto. E conseguem partir de uma rara complexidade para uma simplicidade evidente. É uma arquitectura de camadas. Sonhos, vontades, influências, alegria, lugares, programas, clientes, construção, corpus de trabalho… Tudo se acumula em obras belas e genuínas. Sempre com a mesma consciência – a arquitectura deve responder ao seu contexto e exprimir as preocupações dos seus tempos (1).
1. Frédéric Levrat in ARX Portugal – Uma Segunda Natureza, Blau (1991)
