A casa que se bifurca
Texto de Ricardo Carvalho
Na pendente norte de um vale, no Romeirão, próximo da Ericeira, agregam-se várias casas de dois pisos de forma espontânea. Quase todas estão implantadas de forma a destacarem-se volumetricamente da paisagem, não estabelecendo com ela nenhuma relação para além de uma visibilidade agressiva e inconsequente. Em termos expressivos protagonizam um equívoco que alastra na paisagem portuguesa, um equívoco hoje normativo, que se socorre de forma distorcida de uma suposta referência à arquitectura popular. O que não deixa de ser uma contradição porque a característica primeira da arquitectura vernácula é a sua relação de reciprocidade com a paisagem. Mas no Romeirão existe agora um contraponto a esta norma – o primeiro, além de um solar secular do outro lado do vale. A casa que o escritório ARX Portugal (arquitectos José Mateus e Nuno Mateus) agora concluíram é a primeira a fundamentar essa reciprocidade e a indagar o que pode ser o espaço doméstico nesta paisagem.
Os arquitectos não fazem qualquer alusão directa aos valores tradicionais da cultura arquitectónica. Esses valores estão implícitos num conjunto de temas que sustentam a ideia da casa, devidamente filtrados, e que se cruzam com um universo maior de outros temas, mais abstractos, caros à investigação projectual deste escritório. Daí resulta um trabalho de compreensão das condicionantes e de assumida conceptualização sobre o programa do cliente.
O projecto reage com grande naturalidade às condicionantes físicas e perceptivas do lugar às quais responde com um único gesto: privilegiar o domínio visual sobre o vale, tirando partido da orientação a sul e privar a casa de um contacto directo com as construções mais próximas. Daí resulta um volume longo – “tubular” como lhe chamam os autores– cuja forma reage à topografia, contrariando as curvas de nível. No extremo norte a casa está enterrada, permitindo uma continuidade de perfil entre pendente e cobertura plana quebrada em dois planos, que estão contudo demarcados da paisagem com o revestimento a seixo. No extremo sul a casa está suspensa sobre socalcos no contacto mais directo com o vale, enquadrando no interior uma vista “scope” sobre o vale.
Esta formalização do programa gera complexidade quando se estabelecem as hierarquias funcionais e espaciais no interior. Acede-se à casa por um pátio – que funciona como um filtro pintado de ocre mas também um acerto de escala – onde se clarifica um esquema distributivo clássico (divisão entre área social e área de quartos). A presença irrefutável de um tanque e de uma Nogueira a nascente, agora ocultados pelo volume branco da casa a quem chega, motivam a bifurcação do sistema tubular originário, e a descoberta destes elementos passa essencialmente a ser feita ao percorrer o interior. Com a fractura do volume inicial os espaços reagem momento a momento, tema a tema, com grande proximidade e intimismo a elementos da paisagem que são transportados ao interior de forma distinta do “écran” monumental da sala de estar. Gera-se uma diversidade de escalas – entre espaços estreitos e altos ou largos cujo plano de tecto é quebrado – que constrói a hierarquia e identidade de cada um. Assim a sala “aponta” ao vale, o quarto principal – o espaço que mais partido tira da bifurcação – parcialmente suspenso, “aponta” ao tanque e o corredor central está por sua vez rematado por um vão que enquadra a Nogueira. Estas três peças balizam a conceptualmente a casa, que se formaliza com uma paleta reduzida de materiais, onde a pedra (calcário e granito) é utilizada precisamente na marcação dos momentos mais fortes: a bifurcação, as “topos” e a entrada.
Uma das indagações colocadas nas últimas décadas, no panorama da arquitectura, é precisamente aferir o tipo de contributo das moradias unifamiliares para o campo disciplinar. Aquilo que começou por ser uma alternativa à cidade densa no século XIX – a “cidade” dispersa na natureza na qual idealmente se tentava fixar – e acabou numa circunstância –a cidade difusa– adquiriu no território nacional nos últimos trinta anos proporções inimagináveis. E se o problema se prende, antes de mais, com a (inexistente) organização e (ineficaz) gestão do território, prende-se também com a capacidade daquilo que se constrói – independentemente da escala ou programa – para gerar qualidades genéricas na paisagem. É certo que as casas são uma resposta parcial de grande especificidade, mas a dimensão da casa, aquela que importa e que atravessou séculos, é a dimensão cultural e não apenas a funcional. E é essa dimensão aquela que está totalmente delapidada na paisagem contemporânea em Portugal. Daí a importância de alguns projectos de pequena escala que possam fazer extravazar a sua metodologia, não a sua forma.
O conjunto de temas tratados nos projectos referências de casas constituem pistas para um olhar generalizado sobre questões genéricas relacionadas com o território e a paisagem. Isto para além da necessária qualidade tipológica e expressiva que se espera do tema, onde o cliente desempenha um papel fundamental. Essa tradição de qualidade foi continuada por projectos conceptualmente tão distintos e para situações tão diversas como os de Ruy Athouguia (1917), João Andreson (1920-1967), Fernando Távora (1923), Álvaro Siza (1933) e Eduardo Souto Moura (1952), ou mesmo o recente “Prémio Secil” Pedro Maurício Borges (1963) para citar só alguns arquitectos cuja prática passou ou passa pela habitação. Hoje, com a arquitectura a conhecer uma divulgação sem precedentes, por vezes também sem critério, esse caminho parece ser ainda mais difícil, mais tortuoso e carregado de equívocos, parte dos quais da responsabilidade dos arquitectos. Nesse sentido a casa do Romeirão do escritório ARX Portugal inscreve-se de imediato num conjunto de projectos cuja capacidade de gerar qualidades, a partir da compreensão daquilo que é essencial, não se esgota no cumprimento sedutor e competente de um programa.
