Algures para além dos espelhos

Texto de Alexandre Marques Pereira

 

“Uma verdade em Arte é algo de que a contraditória é igualmente verdadeira. E do mesmo modo é na Crítica de Arte e por meio dela, que somos capazes de apreender a teoria platónica das idéias”

Oscar Wilde

 

A – Oscar Wilde remata desta maneira um notável ensaio chamado “A Verdade das Máscaras”. Nesse belo texto Wilde defende o papel da Arqueologia enquanto ferramenta de rigor e verdade, como suporte ao artista, para dar fulgor e beleza ao drama em qualquer tempo histórico. Wilde defende em palavras o que Shakespeare defendia nas suas peças, o valor do pormenor, o rigor do detalhe, que, inserido num dado conjunto, vale também por si. Este princípio, segundo Wilde, atingia o seu maior esplendor no vestuário, mais do que nos cenários (1).

A certa altura do dito ensaio, pode ler-se “A Arqueologia, sendo uma Ciência, não é boa nem má, é simplesmente um facto. O seu valor depende inteiramente do modo como for usada e só um artista a poderá usar. Esperamos do arqueólogo que nos dê os materiais, do artista que nos dê o método”.

Em certa medida, os arquitectos, enquanto homens de arte, usam cada vez mais a “Arquelogia”. No início do primeiro milénio os Romanos usaram a arqueologia de uma forma pragmática e incipiente. Em relação aos Gregos podemos dizer que foram eles, os Romanos, que iniciaram o mito da antiga Grécia.

No Quattrocento os homens do Renascimento serviram-se da Arqueologia para fazer reviver o esplendor da Antiguidade Clássica Grega e Romana. Foi no final do Séc.XVIII e primeira metade do Séc.XIX com o esplendor do Romantismo que a relação entre a Arte e a Arqueologia atingiu a sua plenitude. A Arqueologia atingiu finalmente o estatuto de Ciência e foi através desta Ciência que arquitectos como Schinkel ou Leo Von Klenze construíram os seus universos arquitecturais.

Daqui para diante, a Arte e a Arquitectura já não podem viver sem a “Arqueologia”, seja Arqueologia da Grécia Antiga, da Arquitectura do Ferro, como do Movimento Moderno.

Se a arte sempre se balizou entre as utopias do passado e as utopias do futuro, hoje em dia, com a falência das vanguardas, estamos cada vez mais “dependentes” das utopias do passado (longínquo ou recente). Vivemos na eterna esperança de um novo renascimento.

Ao servir-me escandalosamente de Wilde para entrar no mundo de Nuno Mateus (ARX Portugal), faço-o, primeiro por preguiça, essa preguiça que Wilde tanto elogiava, segundo por pensar que este trabalho, ao nível da “teoria platónica das ideias”, tem bastante que ver com uma ideia defendida por Wilde no “Declínio da Mentira”. Nesse diálogo Vivian (2) defende a teoria na qual, ao contrário do que é comummente aceite, não é a arte que imita a vida mas sim a vida que imita a arte.

Daqui pensar que, espelhando a cada vez maior complexidade do mundo contemporâneo, o trabalho de ARX Portugal aposta sempre na criação de outra “realidade”, que servirá como cenário a um drama localizado num dado tempo e espaço.

Esta atitude inequívoca do papel da Arquitectura enquanto Arte, reflecte também por outro lado a convicção de que o Homem, enquanto indivíduo, nada pode para alterar o destino da História, daí restar à Arte o papel de “Máscara” para suavizar o viver do dia-a-dia por mais tristonho que ele seja. Esta ideia Nietzcheniana, está nos antípodas das convicções e ilusões de grande parte das vanguardas do princípio do século, as que acreditavam que através de uma nova Arte seria possível criar um Homem novo, uma nova realidade, enfim um mundo novo. Estará também nos antípodas de qualquer atitude Neo-realista, embora o Neo-realismo nunca tenha deixado de ser Romântico, mais no cinema do que na Arquitectura, mas isto será porventura outra história.

 

“Toda e qualquer comunicação de conteúdos é Linguagem”

Walter Benjamim

 

R – O grande dilema dos arquitectos de hoje em dia (e não só dos arquitectos) põe-se não tanto ao nível dos conteúdos, mas antes no comunicar desses conteúdos, ou seja na linguagem. Acabado o tempo dos Tratados e das Academias, sendo a última das Academias a “Carta de Atenas”, e por outro lado com a fragmentação dos saberes, estamos agora num período em que as arquitecturas reflectem cada vez mais as opções pessoais do arquitecto, o seu percurso e, porque não, as suas manias.

O método de trabalho da ARX Portugal apoia-se num princípio “platónico-racionalista”:

– Platónico, na medida em que a sua postura se opõe mais ou menos conscientemente àquele positivismo que Alberto Perez-Gomez acusa de co-responsável na crise actual da Arquitectura. A visão de Nuno Mateus sobre a “experiência humana” está longe da visão simplista e redutora dos positivistas. Segundo Perez-Gomez “ao adoptar as ideias da ciência positivista, a Arquitectura viu-se forçada a rejeitar o seu tradicional papel como uma das Belas-Artes. Ao ficar privada do seu legítimo conteúdo poético, a Arquitectura viu-se reduzida ora a um mero processo tecnológico, ora a simples decoração”.(3)

– Racionalista à maneira de Sto.Agostinho, ou seja, todos os problemas estéticos, são realmente resolvidos por métodos puramente geométricos. Daqui, perante uma dada realidade, em primeiro lugar a ARX Portugal desmonta e analisa, geometricamente, essa realidade, para a partir daí, em seguida, a partir da geometria e da álgebra, contrapôr outra realidade, a tal “segunda natureza”. Este método de trabalho podemos encontrá-lo, tanto nos mestres das catedrais góticas até em nomes da Bauhaus como Johanes Itten, ou até no soviético Malevitch.

Ainda no domínio da linguagem, a relação unidade-fragmento que Wilde já apontava, é explorada no trabalho de ARX Portugal de uma forma estruturante do resultado final, no sentido em que existe em todo o percurso projectual um constante vai-vém, da unidade para o fragmento e vice-versa, numa maneira quase cinematográfica de relacionar o todo com as partes.

Como a Arquitectura é feita por homens, e os homens têm sempre o lado racional e o lado instintivo, ou pelo menos não comensurável racionalmente, também os projectos e obras de ARX Portugal não fogem à regra. São as questões da escala, da luz e sombra, as relações espaciais, a proporção, o prazer no fazer etc., etc. Estas são as coisas que, em última instância, definem o caracter de cada trabalho, e por vezes passam ao lado da vista desarmada, mas como dizia o principezinho “o essencial é invisível ao olhar”.

O fascínio da Arquitectura está, penso eu, na descoberta das suas essencialidades, na descoberta daquilo que está para além do visível. Este “mistério” sente-se por exemplo na casa de Melides.

 

X – Sobre o que dizer da exposição propriamente dita, opto finalmente por dizer o menos possível, esta opção radica acima de tudo na convicção cada vez maior de que o papel da “crítica” não é tanto o de tentar explicar, analisar e catalogar formalmente um dado objecto, mas antes, e voltando a Wilde, o tentar apreender a teoria platónica das ideias, friso, das ideias e não dos arquitectos, ou do que forem.

Daqui pensar que a exposição, enquanto projecto de instalação-cenário, materializa o universo conceptual de Nuno Mateus (ARX Portugal), aliando um forte sentido lúdico a um funcionalismo não dogmático, que percorre todo o seu trabalho.

Por outro lado é quase um manifesto, talvez insconsciente(?) contra esse mundo retórico e formal que é aquele lugar, lugar esse em que a escala, a luz e a proporção, andam perdidas em nome de uma linguagem.

 

(1) As peças de Shakespeare eram quase sempre representadas com pano de preto.

 

(2) O diálogo dá-se entre Cyril e Vivian e passa-se na bibiloteca de uma casa de campo de Nottinghamshire.

 

(3) Alberto Peréz-Goméz, Architecture and the Crisis of the Modern Science, MIT Press, London/Cambridge/Massachussets, 3ª.col., 1985.