Lendo História
Texto de Catherine Slessor
Esta nova biblioteca numa cidade provinciana Portuguesa faz conexões ressonantes com uma história.
Esta nova biblioteca é o segundo edifício público construído em Ílhavo pela dupla José e Nuno Mateus que fundaram a empresa ARX Portugal no início dos anos 90. O seu primeiro, uma inteligente transformação e expansão do museu marítimo da cidade (AR Julho 2004), celebra o particular, enquanto simultâneamente abora temas mais elementares. Também requereu pragmatismo no lidar com uma estrutura existente pouco interessante, a qual, de forna a garantir os fundos comunitários, teve de ser integrada dentro do novo edifício. Coincidentemente, o projecto da biblioteca também envolve um elemento existente, mas um de bastante maior mérito histórico; neste caso os restos do solar do Visconde de Almeida, uma mansão aristocrata que data do século dezassete.
O local situa-se na orla de Ílhavo, em ambientes circundantes típicos de periferias incoerentes e deslocadas um pouco por todo o lado. Tanto a natureza do lugar como a presença de uma estrutura original deu lugar a uma estratéga de reafirmação e consolidação com nuances, ao invés de simplesmente introduzir um edifício gestual.
Quando os irmãos Mateus ganharam o concurso para o projecto em 2001, não restava muito da mansão. Ainda que constituindo um exemplo de herança rara numa cidade litoral mais conhecida pela sua indústria do que história, a preservação e integração do que tinha sobrevivido tornou-se o ponto de partida para o projecto.
Da casa original, permaneceu apenas a fachada principal, a pequena capela familiar, que corre ao longo da extremidade sudoeste do lote. Ambas estavam em ruínas, mas estão agora imaculadamente restauradas, tornando-se pontos de ancoragem às adições e intervenções da ARX. Executado com um gosto de abstracção e clareza que claramente está em divida com Siza, as partes novas ligam-se ao existente, os seus volumes brancos desenham num jogo abstracto contemporâneo, de vernacular ibérico. A entrada principal a nordeste está marcada por uma pala triangular que abriga uma parede envidraçada de grande escala, um raro interludio de iluminação e permeabilidade numa composição predominantemente hermética.
A biblioteca forma o fulcro social e organizativo da planta, ancorada nos fragmentos históricos, que funcionam agora como espaços administrativos técnicos. A sala de leitura principal está suspensa sobre o átrio coroado por uma versão moderna de uma cobertura recortada. No lado sul, o átrio e a sala de leitura acomodam um pátio ajardinado secreto, uma versão moderna do refrescante pátio Ibérico.
Uma paleta rigorosa de paredes brancas e pavimentos de pedra cinza unificam o interior, com o velho toque calculado, tal como o candeeiro desenhado, que paira ameaçadoramente sobre o átrio da entrada como um aglomerado de palitos suspenso. Aparece-nos como se tivesse sido despojado dos seus elementos decorativos com o passar do tempo. A pequena capela foi delicadamente restaurada para a sua função original, adicionando outra dimensão para a natureza cívica do complexo; porém num país manifestamente Católico, a sua presença não parece fora do lugar.
Ao longo do projecto há uma fértil reciprocidade entre o velho e o novo com as partes novas inequivocamente do seu tempo e caracterizadas por um arrojo formal. Apesar disso tudo é suavizado por uma sensualidade subtil – a manipulação de materiais, o jogo de luz – e a esclarecida consciência do lugar, história e de como a boa arquitectura pode ter consequências importantes e revigorar uma comunidade mais abrangente.
Ver: Biblioteca Municipal de Ílhavo
