Uma Segunda Natureza
Texto de Frédéric Levrat
NY 26 de Julho de 1992, 17H10
Nova Iorque, Domingo, 26 de Julho de 1992, hora real 17H10. Estou a tentar responder a um fax que acabo de receber de Genebra. A televisão na sala ao lado está a dar sondagens das eleições americanas e a compará-las com as da eleição anterior. O telefone toca de novo. Desta vez não é um fax, mas uma voz do Japão pedindo-me para mandar um livro esquecido no meu apartamento. As notícias dão conta da súbita subida do índice da bolsa por,… nenhuma razão especial. Apenas o número de pobres e desempregados cresceu. A emissão é interrompida por um anúncio de gelados e, logo a seguir, imagens de um massacre onde dantes era a Jugoslávia. Tento desesperadamente acabar o meu texto para mandar por fax ao Nuno, em Lisboa, ainda hoje à noite. Volto para o meu computador e encontro uma mensagem no ecrã dizendo que não há mais espaço na memória (memória de quem?)… e provavelmente já são 11H17 em Portugal.
Num debate, voluntariamente circunscrito a estilos,-ismos, funcionalidade ou tradições, permitamo-nos fazer algumas perguntas sobre os fundamentos e motivos daquilo que pode ser considerado como a : a Arquitectura.
A arquitectura, no desejo de se respeitar a si mesma tem que ser capaz de exprimir e responder ao que a rodeia, em termos culturais, intelectuais, sociais e políticos. Mas aquilo que costumávamos considerar a definição do nosso ambiente – o que nos rodeia no dia-a-dia – foi fundamentalmente alterado, tal como aquilo que considerámos o , no que respeita ao contacto com o : os limites do nosso corpo ou a nossa <>.
É obvio que a tecnologia alterou o que nos rodeia, estendendo a nossa percepção física para além das nossas fronteiras antropomórficas. Embora muitos exemplos possam demonstrar essa declaração, gostaria de me concentrar na evolução da tecnologia, através da análise da noção de velocidade.
Desde Milliner, o poder tem sido relacionado com a velocidade de comunicação, como Paul Virilio demonstrou e como já era um factor chave há quatro mil anos atrás, quando o Faraó Ramsés II foi representado com o símbolo do seu poder, um chicote e rédeas, para controlar a velocidade dos seus cavalos. Desde então, a velocidade de transporte aumentou, passando da força animal para a força mecânica, atingindo, ultimamente, o transporte quase instantâneo, de informação em que as condicionantes materiais e a deslocação fisíca já não são necessárias.
Com a velocidade instantânea, a informação pode estar < >, afectando directamente diferentes partes do mundo, sem requerer uma . Uma voz prolonga-se no espaço, alcançando outro continente, através do telefone. Imagens e sons são reproduzidos, simultâneamente, no interior de dez milhões de salas, pela TV, seja qual for a distância, tempo e quantidade. O nosso espaço de interacção com o mundo exterior é agora ilimitado.
Essa interacção não envolve, contudo, todo o nosso corpo, mas apenas um número parcial dos seus sentidos. Apenas os olhos e os ouvidos são capazes de perceber a informação. O observador, como entidade, relacionado com um corpo específico, num dado lugar e num dado tempo, foi deslocado, fragmentado. Este estado recente de fragmentação proporciona-nos uma problemática inteiramente nova, a que eu chamaria o .
A nova tecnologia proporciona claramente a possibilidade para um mundo ou espaço específico, que troca e contém informação (ordens) e não requer qualquer espaço físico. Tem, como tal, uma grande influência na nossa vida diária, desafiando a noção intrínseca do <>.
Como exemplo sofisticado, a Bolsa é, provavelmente, um dos sistemas mais influentes à escala do planeta. Esta processa-se a partir de informação digital para bancos de dados, vinte e quatro horas (ou mais) por dia, em nenhuma localização específica (Nova Iorque, Tóquio, Francoforte, Londres e em todos os lugares entre elas) e, supostamente, determina o valor abstracto relativo ao <> das matérias, da produção humana, etc. Esses valores existem, mais como representações de si mesmos, neste , do que no mundo <>.
O que condiciona a nossa experiência, parece ser mais influenciado pela <>, do que pela experiência física directa daquilo que nos rodeia. Dentro deste ambiente mediático, as coisas começam a tornar-se muito complexas, à medida que colocamos a questão da percepção ou da construção de um referencial.
A percepção é uma coisa activa, e o que vemos é, literalmente, aquilo que é perceptível. Mas, para podermos distinguir formas ou conceitos, é necessáio sermos capazes de construir um <>. Essa construção educada de um sistema referencial permite-nos distinguir o que é bom daquilo que é mau, o belo do feio, o amigável do perigoso. Grande parte do conhecimento daquilo que nos rodeia chega-nos pela informação mediatizada. Criamos referências pré-determinadas, não por aquilo que exeprimentámos, mas pelo que vimos ou ouvimos e apenas como uma percepção fragmentada e como uma informação previamente produzida e processada.
A materialidade desapareceu para ser substituída por uma representação de si mesma. A imagem ou informação tornou-se mais poderosa que o objecto <>e a maior parte do nosso ambiente está ser modelado por uma informação que não necessita de ou tempo ou noções de espaço e tempo, como era costume.
Como é que tudo isso se relaciona com a arquitectura e, se relaciona, como é que poderá por ela ou nela ser traduzido, é uma questão incómoda. O desafio proporcionado à arquitectura e ao urbanismo é, certamente, um dos mais profundos, questionando aquilo que sempre acreditámos serem os fundamentos da nossa disciplina.
No meio de toda esta incerteza, existe um princípio claramente perceptível para alguns jovens arquitectos, cuja procura pode ser encontrada ao longo deste livro: A Arquitectura deve responder ao seu contexto e exprimir as preocupações dos seus tempos.
É a materialização do nosso pensamento e da nossa condição social. Sempre foi assim, e aconteça o que acontecer, sempre assim será. Se a arquitectura ainda quiser <> alguma coisa, precisa de lidar com estas mesmas extensões do corpo e criar um <> para a mente.
Para melhor compreender a obra de Nuno Mateus, é preciso inscrevê-la numa estrutura mais vasta de investigação, fundada há cerca de três anos no Japão e em desenvolvimento, desde então, num espaço múltiplo e indeterminado, através de trocas de informação entre Nova Iorque, Berlim, Kobe e Lisboa. <>, como é chamada, é um diminutivo de <>. Inclui alguns jovens arquitectos e teóricos que, não apenas vêem algumas possibilidades de reinterpretação do espaço e do contexto social na sobreposição do espaço, tempo e culturas mas também tentam investigar essas possibilidades, .
ARX é uma existência que não existe no nosso <>. É, antes, uma rede de informação, capaz de permitir trocas intensivas através de diferentes culturas. Permite o acesso à interacção localizada para além das nossas capacidades antropomórficas. Este curto-circuito do espaço permite alguma experimentação na diferenciação das várias culturas, linguagens e espaços, criando leituras distorcidas e percepções fragmentadas e investigando o potencial de um directamente aplicado ao mundo físico.
A multiplicidade de lugares e a multiplicidade de actores no processo de decisão é imanente às possibilidades da nossa sociedade, mesmo quando o seu objecto principal é produzir um espaço singular.
A obra apresentada neste livro aborda a arquitectura como uma constituição de uma realidade informativa em si mesma – incluindo informações que não estão necessariamente relacionadas com um tempo ou espaço específico – utilizando uma leitura intelectual do local e do programa.
Por muito que reconheçamos a importância de exprimir a existência dessa ou presença intelectual, reconhecemos a sua incompatibilidade com a qualidade puramente física de um espaço construído. Desenhar um processo pensado constitui o primeiro passo, trazendo-o a uma representação a duas dimensões que possa, facilmente, ser transformada num diagrama ou construção tridimensional.
Os arquitectos sempre construíram abrigos para nos proteger dos perigos potenciais e, desde o primeiro dia, o principal perigo veio sempre da Natureza – através das chuvas, frio ou animais selvagens – e essa foi, portanto, a primeira motivação da arquitectura. No entanto, desde há várias décadas, em particular desde Hiroshima, é possível encontrar nas obras de muitos filósofos e cientistas a ideia de que a Natureza já não é o principal inimigo mas que o < > é agora bastante mais ameaçador – através da poluição, do arsenal de destruição maciça ou das manipulações genéticas.
A investigação de Nuno Mateus está centrada na inscrição do pensamento intelectual e na sua transformação para uma existência tridimensional. Esta presença tridimensional torna-se então uma estrutura material em potência, feita de tijolos, cimento, aço ou pedra, que é intelectualmente inerente ao <>. Embora seja uma parte do projecto, permanece fora da função ou resolução do projecto arquitectónico. É mais como uma nova natureza, uma Segunda Natureza, que se torna um constituidor activo do meio.
Como um novo constrangimento, o programa e o desenho tentam agora encaixar-se e acomodar esta presença. O trabalho do arquitecto ganhou uma nova camada de complexidade onde, como decisor de formas, ele é o único a materializar e a traduzir numa dimensão física a presença de uma poderosa e imaterial .
O verdadeiro design (como costumava ser considerado) surge apenas depois, fazendo coincidir o programa nessas duas naturezas físicas agora sobrepostas. O excelente trabalho de demonstra bem como essa segunda natureza ultrapassa o terreno natural e como também a beleza do projecto começa a nascer das diferentes inscrições e traços dessas naturezas múltiplas.
A arquitectura é, para quem decide, a transformação da realidade informativa em realidade material mas para o utilizador é uma transformação da realidade material numa potencial experiência pessoal, intelectual e poética. É a fusão possível dos mundos físico e informativo num todo coerente e único, em que cada parede, viga ou pilar começa a proporcionar uma interpretação múltipla, que conterá sempre uma multiplicidade de significados.
Na nossa sociedade, em que o espaço de informação e o espaço físico se afastam cada vez mais, esta arquitectura providencia ao utilizador uma reapropriação do espaço e dos seus significados, através da sua própria experimentação do meio.
Ao inverter o processo, somos confrontados com um verdadeiro todo que está relacionado com o pensamento, noções extra-antropomórficas e espaços heterogéneos, que se combinam numa presença material.
Experimentamos uma simultaneidade no espaço material e invisível, esbatendo e questionando a noção de uma dialética da percepção. Este facto proporciona uma nova possibilidade para cada indivíduo interagir e interpretar independentemente aquilo que o rodeia. O corpo é parte dessa exploração, através do seu movimento, decompondo a noção estática da imagem ou da informação unívoca, tentando reconstruir continuamente um processo, uma lógica nunca atingida ou correctamente traduzida, desdobrando-se sempre de uma forma diferente.
A informação foi construída e desapareceu, deixando vestígios que o corpo encontra. Casa indivíduo tem que afirmar a sua percepção própria, redefinindo a sua compreensão do espaço, bem como a de si próprio.
O espaço com a sua força inerente e presença múltipla, pede u ma interacção, uma reapropriação das suas partes que serão sempre portadoras de um significado suplementar, nunca tendo um significado único ou fixo.
Nessa confrontação necessária, o observador deverá reencontrar a sua noção específica de percepção, jogando com a sua mente, imaginando algo que o corpo descobre sempre, de forma diferente, inscrevendo o num espaço para o corpo e a mente encontrando a sua própria dignidade numa percepção não mediatizada e singular para cada indivíduo.
