Da Biblioteca para a Cidade

Texto de Ricardo Carvalho

Na paisagem horizontal de Ílhavo, que integra um complexo sistema lagunar, o escritório ARX construiu, no início da década, o Museu Marítimo. O museu procurava atribuir um significado ao tecido urbano e afirmava através do desenho das suas coberturas uma hipótese de centralidade simbólica face a um tecido fragilizado pela má qualidade da construção corrente. Com esta segunda obra pública para a mesma cidade, os arquitectos assumem uma estratégia semelhante a partir das ruínas do Solar Visconde de Almeida onde se construiu a Biblioteca Municipal.

O programa lançado pelo município previa a construção de uma Biblioteca, de um Fórum da Juventude e a recuperação da capela que integrava o solar originalmente construído entre os séculos XVII e XVIII. Deste último restava apenas uma fachada, de manutenção discutível, mas que possuía o sentido de “fixar” a capela à frente de rua, com uma qualidade de proporções e materialidade significativas no contexto, ou seja, na memória da comunidade. A capela foi recuperada e integrada no conjunto e o artista plástico Pedro Calapez foi convidado a realizar o novo retábulo, que retomou a policromia do original.

Com esta escassa informação histórica base, face ao banal dominante, os arquitectos procuraram coser outros níveis de informação, como as abruptas mudanças de escala dos edifícios de habitação na envolvente, corrigindo o panorama de dispersão e integrando os fragmentos em busca de um significado urbano fundador de um lugar cívico.

A biblioteca permitiu, tal como o Museu Marítimo, uma estratégia formal de reacção à banalidade, tirando partido do programa (do seu carácter de edifício público) para afirmar valores cívicos através da arquitectura e da cultura contemporânea. A entrada é o momento onde se concentra o gesto monumental de afirmação desses valores, onde o dimensionamento procura uma verticalidade exponenciada e a pedra reveste o espaço numa celebração formal do seu carácter de equipamento público.  Este generoso espaço de recepção acaba por reconfigurar a frente de rua, orientada à ria, e apontar uma pista para que futuras intervenções tirem partido da paisagem que daí se avista ou que procurem novas relações urbanas agora sugeridas pela biblioteca. A capela e o solar tinham por si desempenhado esse papel ao longo do tempo, embora sem o impacto da biblioteca, sabendo-se que existia outrora um braço de ria que ligava a cidade ao oceano, mas essa memória não surtiu efeito qualificador no crescimento urbano estruturado a partir de um cadastro retalhado por pequenos lotes de casas.

O programa da biblioteca é distribuído por volumes que se orientam à cidade (que são maiores ou menores) segundo a vocação do contexto imediatamente próximo. A fachada do antigo solar serviu para construir o corpo que alberga gabinetes técnicos e de administração (ou seja, parte do novo edifício é filtrado para a rua através da fachada do solar). No limite oposto, face a um edifício de habitação, os arquitectos optam por contrapor um volume vertical, albergando o Fórum da Juventude, acertando a escala dessa frente de rua. Entre ambos eleva-se o pórtico, o espaço de recepção, que é uma praça, marcada pelos pilares de aço que sustentam a cobertura.

O carácter formal da entrada é prolongado pelo átrio interior que distribui para um conjunto de espaços mais informais (e domésticos) consequentes com o seu uso. O dispositivo espacial do átrio não deixa de remeter para o das casas nobres, onde habitualmente uma grande escadaria protocolar dá acesso a salas acolhedoras e de menor dimensão. Também isso acontece na biblioteca, ao qual não é alheia a opção de aí colocar  um lustre, numa interpretação contemporânea destas peças.

Na sala de leitura da biblioteca as proporções do espaço alteram-se drasticamente e a iluminação por clarabóias garante as condições de concentração e introspecção. O mesmo sucede nos espaços do piso inferior, também eles mais domésticos, sejam interiores ou exteriores – como o pátio relvado. Trata-se de uma estratégia de variação máxima dos espaços, e consequentemente da procura de ambientes diversos, que coincide com a variação exterior das partes do edifício. O momento mais carismático, pela sua escala e destaque volumétrico, corresponde à “sala do conto” (sala de leitura infantil) que possui um ambiente onírico e se formaliza no exterior de um modo menos “racional”.

Este é o ponto que permite descodificar os dois níveis conceptuais a que o edifício funciona: o primeiro é o carácter crítico face à cidade, procurando trabalhar com o que existe mas sem temer a transformação qualificadora, método legado por Álvaro Siza, e que permitiu às gerações seguintes adoptarem um modo de trabalhar programas de representação institucional a partir da cultura contemporânea. O outro prende-se com a história da arquitectura, entendida como cultura, e que se detecta nas citações que o ARX conscientemente introduz nos seus projectos. Na biblioteca o desenho dos pilares exteriores constituiu-se a partir da obra de Mies van der Rohe (tinham já surgido no Museu Marítimo)  e a forma da “sala do conto” remete para os trabalhos de Alvar Aalto (da arquitectura até ás jarras) na senda de um ready made integrado no conjunto vasto do edifício.

A citação não funciona, no entanto, como colagem, mas mais como integração de fragmentos num sistema que é ele próprio um fragmento no contexto da cidade. E esse é o modo de actuação encontrado pelos arquitectos (portugueses) face a um território cujas mutações há muito deixaram de poder ser monitorizadas pela arquitectura. O escritório ARX opera nesse contexto com pragmatismo e intensidade e procura lançar uma pista de fundação de um significado cultural através da biblioteca. Como afirmou Peter Wilson (revista “El Croquis” nº 67,1994) “o desaparecimento da ideia de uma estrutura linguística absoluta é a condição cultural geral onde todos estamos imersos (…) face à ausência de uma estrutura geral de significado, o que se pode fazer é conformarmo-nos com os fragmentos”. A Biblioteca de Íhavo lançou os temas, o passo seguinte será legar aos arquitectos, aqui como em todo o território, uma estratégia de unificação desses fragmentos.

Ver: Biblioteca Municipal de Ílhavo