Rescrever a Natureza
Texto de Ana Vaz Milheiro
A Arquitectura desconcertante de Nuno Mateus/ARX Portugal marca presença no Centro Cultural de Belém…
Existe na pesquisa arquitectónica de Nuno Mateus e do atelier ARX Portugal, fundado em 1991 com o seu irmão José Paulo Mateus (projecto que contaria com diversos colaboradores, entre os quais destacamos a arq.Alexandra Margaça), uma indubitável propensão para a criação de imagens de forte imanência mediática. O carácter não se esgota na superficialidade que o termo sugere, mas propõe uma leitura alternativa do espaço como componente possível de um mundo altamente fragmentarizado.
Num texto que nos informa sobre essa Segunda Natureza, aleatória e desconcertante, imposta pela sistematização exacta do acto de comunicar à escala do planeta Frédéric Levrat descodifica os sintomas mais evidentes do comportamento humano: “o que condiciona a nossa experiência, parece ser mais influenciado pela “realidade dos Média”, do que pela experiência física directa daquilo que nos rodeia.”
Ao estabelecer os parâmetros de funcionamento do indivíduo sobre um universo não táctil, e por isso liberto desse quinto sentido que julgamos imprescindível, Levrat introduz-se no ponto nevrálgico da reflexão indiciada pelo projecto coordenado por Nuno Mateus. Na verdade, fá-lo precisamente no prefácio de uma publicação da Editorial Blau (1993) preenchida com oito propostas para concursos, também expostas no Centro Cultural de Belém, que os ARX Portugal desenvolveram ao longo da sua curta (porém profícua) carreira. A dissertação acentua a primazia do pensamento intelectual desencadeado na prática de N.Mateus e do seu processo de transfiguração para uma existência tridimensional, afinal a essência fundamental da Arquitectura. Convém aqui explicar, que também Levrat pertence à rede expansiva dos ARX (sigla que deriva de ARchiteXture), um método de angariação e permuta de informações diversificadas que várias personalidades travam entre si, diminuindo o afastamento relativo de Lisboa (Bairro da Serafina) a Nova Iorque, Kobe ou Berlim. A aproximação conseguida através dos meios tecnológicos ao serviço do homem contemporâneo esbate as fronteiras e ilude as distâncias. Produz a multiplicidade de coordenadas que condicionam ou geram a percepção individual, que como afirmámos, encontra-se já perante a ausência restritiva da concepção espacial enquanto sistema hermético e limitativo: “A percepção é uma linguagem porque esta é um fazer transformador, formulável em termos de percurso. Um micro-universo é um “teatro” fechado. Por dentro das palavras há corredores de sons, rumores de língua” (José Augusto Mourão, Espaços do Olhar – O Interdiscurso da Arquitectura, Realidade-Real/Catálogo, 1993).
Desta matéria ainda, se faz a génese peregrina das vanguardas, ou envereda-se em campos falíveis de experimentação, cujas repercussões podem eventualmente redundar numa ulterior forma de Sabedoria, que podemos somente perscrutar porque não alcançaram a estabilidade cabal. ECLIPSE NO MUNDO DAS FORMAS. Nuno Mateus permaneceu cinco anos na cidade de Nova Iorque, onde haveria de concluir o curso de Master of Science in Architecture and Building Design (Universidade Columbia), trabalhando posteriormente com Peter Eisenman. O facto elucida-nos quanto à orientação ensaiada nesse primeiro período de formação. Permite-nos igualmente perceber o grau de dependência mantida em torno de um circuito alargado, temendo o isolamento ou o receio de um qualquer exílio involuntário.
Destituída a Materialidade que classifica os objectos, e seguindo ainda o raciocínio de Levrat, esta será então substituída pela representação de si mesma, num mundo que prescinde das noções ancestrais de espaço/tempo e por isso procura a simultaneidade como atributo indissociável do elemento construído: “O espaço com a sua força inerente e presença múltipla, pede uma interacção, uma reapropriação das suas partes que serão sempre portadoras de um significado suplementar, nunca tendo um significado único ou fixo.” A perca simbólica da univocacidade espacial da Arquitectura enquanto objecto moldado ou preso à especificidade do seu Lugar, Função e principalmente Fruição, pressupõe a saturação dos índices conjugados. Estes funcionam como dados inseridos na construção, podendo deliberadamente tornarem-se resíduos dessas intenções originais: “Gosto de estabelecer diversos níveis de leitura nas peças. Parece-me que existe um certo nível em que a transmissibilidade pode não transcrever o conteúdo incluso, no entanto tem que expressar a vontade de o fazer” (N. Mateus). São trilhos emersos, consentidos propositadamente no território edificado com intuito (des)orientador que contribuem para modelar a compreensão do ambiente que nos é oferecido, ou pelo menos, sugestionado: “comunica-o a determinados níveis e depois corta-lhe alguns acessos para perpetuar a relação com o Objecto. “Para isto contribui a própria montagem da Exposição no C.C.B., indecisa entre a efemeridade do evento (recorre assim às propriedades de uma manifestação artística perfeitamente reconhecível, e só neste contexto podemos falar de Instalação), sem recusar a evocação de vocábulos ou arquétipos próximos da disciplina testada na Arquitectura, cumprindo a frase de J.A.Mourão: “Porque o próprio do espaço é de se prestar a, de estar à disposição do tempo a às suas latitudes de deformação.
(Neste instante preciso, lamento apenas que durante a conversa com Nuno e José Paulo Mateus não tenhamos abordado a questão da Perenidade…)
O OBJECTO DA REALIDADE-REAL. A ordem persuasiva do percurso estruturado na Mostra Realidade-Real contraria qualquer indicador de um espírito menos atento que pressinta o oposto. A intenção é iniciática quando nos induz num “trajecto” coactivo e axial que procura condensar o espaço gregottiano do Centro: comprido, descontínuo e desabrigado (qualidade alienábil que confere a vocação oficial do edifício).
A sucessão arbitrária das maquetes, única presença palpável, surge ilibada pelo objectivo de não expor segundo os códigos dos arquitectos (os tradicionais desenhos: Plantas, Cortes ou Alçados). Possibilita a familiaridade do observador com o Objectivo de trabalho do atelier ARX: “Operamos a três dimensões, porque o esquisso é demasiado pessoal impedindo a flexibilidade que o volume detém e que nos permite manipular geometrias mais complexas.” Diante do Objecto apropriado, o visitante percorre com o Olhar os elementos dispostos de modo a direccionar vistas aéreas, que no sentido inverso pretendem incutir uma escala mais personalizada. O subterfúgio favorece a proximidade de ligação ao universo simulado sem confundir uma representação ideal com a “imitação do real.” Não se tratam de peças “belíssimas” (Pulo Varela Gomes, Expresso, 19/06/93), porque (em Arquitectura) o conceito do Belo não interfere no perímetro experimental do processo criativo, ou seja, não é deliberação autónoma mas resultado. E só aqui o crítico se aproxima da veracidade irrepreensível, já que as maquetes apresentadas conseguem (pela inexistência de correspondência construída) concorrer no significado de “Obra de Arte”, e apenas como tal, estão expostas.
O elevado índice de subjectividade (O objecto é eventual e subjectivo, N. Mateus) garante a justificação retórica (e até metafórica) do material utilizado. Por isso jamais se subestima o papel da Música (M. Azguime), da Literatura (J.A. Mourão), das Artes Plásticas (C.A. Ribeiro), da Informática (Centro de Multimédia do INESC), da Crítica (A.M.Pereira). As “interveniências”, alegadamente despóticas, possuem a capacidade de dissimular a alternância comunicativa da Arquitectura produzida pelo “grupo” ARX Portugal, aspecto em que são absolutamente cooperantes.
Movimentando um imaginário artificial: apelando à posição do visitante como voyeur do enquadramento fotográfico que José Manuel regista das obras concluídas (principalmente da Casa de Melides), e ainda mediante a obrigatoriedade adicional de espreitar por ambíguos optígrafos (único canal perscrutável de fuga para o Real) o Objecto da Exposição subverte-se e causa estranheza. Dessa estranheza fala-nos José Mateus: “Quando um atelier se propõe trabalhar dentro de uma natureza “não convencional”, lida com questões “menos confortáveis.” A atitude impõe-nos cortes com o passado, com a vivência anterior e a aprendizagem, mas acaba por nos fascinar e deslumbrar.”
O MÉTODO E O PROJECTO DE BERLIM. Se a clareza do método está delineada, a transposição para os espaços interiores, aqueles que organizam o ambiente arquitectónico e o qualificam numa escala antropomórfica (escala 1:1 mencionada por Varela Gomes), evidencia a sua falência. A inabilidade aparente de encontrar um dispositivo concordante reforça o retorno a esquemas estruturais que retomam soluções tipológicas inalteráveis. Talvez resida neste ponto a “inoportunidade” em incluir desenhos na Exposição (processo que muito provavelmente se desencadeia ainda no subsconsciente). A sua leitura planimétrica remete para a disposição euclidiana que gere a funcionalidade das propostas. Mesmo num dos projectos mais exaustivos e reveladores (a análise é por defeito generalizante) como a Faculdade de Motricidade Humana (U.T.Lisboa), a riqueza discursiva dos pressupostos não consegue ultrapassar as condições programáticas, comprometendo o “salto” referido por José Mateus. A advertência pode ser detectada em J.A.Mourão: “ O trabalho da imaginação não nasce do nada, mas liga-se, de um modo ou de outro, aos paradigmas da tradição”.
São propostas como a executada para o Concurso Internacional de Ideias para o Desenho Urbano de Spreebogen (Berlim), o domínio excelso das potencialidades intrínsecas à motivação ARX: “Tanto o Lugar como o Programa possuíam uma carga simbólica impressionante, interessando-nos mutuamente. Por outro lado, o facto de enquanto arquitectos pudermos expressar a nossa opinião e participarmos numa discussão aberta internacionalmente é um privilégio que seria uma pena deixar escapar.” A reinterpretação de valores preponderantes numa parcela fundamental de uma cidade cujo significado possui repercussões no “quotidiano político universal”, ajusta-se ao debate estimulado neste atelier: “A investigação foi feita no Japão, Nova Iorque e Berlim por pessoas distintas com quem preservamos uma relação/discussão sobre Arquitectura. Depois reunimo-nos e durante uma semana confrontámos a informação recolhida. “Partindo da “colagem” de impressões pessoais chega-se a uma dimensão global do problema: O Sítio – a curva artificial do rio Spree, a curva da linha do Comboio (utilizada pelo expresso Paris-Moscovo, eixo fortíssimo no contexto europeu), a zona portuária do canal que estabelece ligação com Hamburgo; As Reminiscências – o Reichtasgsgebaude (Parlamento alemão), a Embaixada da Suíça (único edifício poupado por Hitler na sequência do Plano dos anos quarenta), o projecto utópico da Cúpula gigantesca de Albert Speer, a memória recente do Muro; A História – o fantasma do Nazismo, o fim da Guerra-fria, a Dispolarização do globo, a Alemanha Reunificada; As Malhas Urbanas – a presença sinusoidal das curvas, as direcções de Berlim Oeste, o módulo estreito e comprido do tecido do séc.XIX, a Leste.
Neste contexto particular, se criam as opções do projecto movendo-se sobre uma base filosófica de suporte: “A noção de esvaziamento do Centro de Poder (como oposição à imagem hitleriana retratada por A.Speer), numa sociedade como a alemã, em que o Parlamento não corresponde ao poder unívoco, mas resulta da conjugação de vários poderes.“ A sobreposição das permissas envolvidas proporciona o diagrama que regra a intervenção e lhe imprime um Tema de suporte. A qualidade do trabalho final e principalmente a sua capacidade extraordinária em Comunicar, mereceram o reconhecimento do júri, que entre cerca de 800 participantes, iria premiar esta proposta com um prestigiante oitavo lugar.
